O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa, apartidária e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação para zelar pela integridade da informação que molda o debate público. O objetivo é oferecer à audiência uma compreensão clara e confiável dos acontecimentos e contribuir para a integridade do ambiente digital e para uma sociedade mais bem informada e resiliente à desinformação e a golpes e fraudes virtuais.
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Investigado por: 02/10/2026

Entenda por que as bets foram proibidas enquanto as loterias da Caixa seguem liberadas

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Diferença na regulamentação, natureza do jogo e repasse social explicam por que as loterias federais operam sob regras próprias e sem as restrições impostas aos sites de apostas.

A principal diferença é jurídica: embora as bets e as loterias da Caixa sejam modalidades de aposta, elas seguem regras e regimes legais distintos. As bets começaram a ser legalizadas no final de 2018, quando o então presidente Michel Temer sancionou a Lei nº 13.756. Porém, a regulamentação do setor só avançou de fato em 2023, com a aprovação da Lei nº 14.790, também conhecida como a Lei das Bets. Foi essa legislação que formalizou e estabeleceu as regras para as apostas de quota fixa, que inclui tanto os jogos esportivos quanto os demais tipos de apostas.

Já as Loterias da Caixa surgiram oficialmente em 1961, quando a Caixa passou a administrar as loterias federais do Brasil. Atualmente, suas unidades lotéricas comercializam modalidades como: Mega-Sena, Loteria Federal, Dupla Sena, Quina, Lotomania, Lotofácil, Timemania, Loteca, entre outras.

Segundo Berto Igor Caballero, doutor em Direito Constitucional com ênfase em Inteligência Artificial pelo IDP-DF (Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa do Distrito Federal) e professor adjunto da Universidade Federal do Piauí (UFPI), as loterias federais administradas pela Caixa estão submetidas a uma estrutura jurídica própria.

Por que as bets foram proibidas?

Berto Igor Caballero ressalta que a medida do governo em proibir as bets deve-se ao endividamento das famílias; preocupação com o transtorno do jogo compulsivo (ludopatia), que afeta a saúde mental e o bem-estar social de milhares de apostadores; além da proteção de menores e falhas na arrecadação, pois, segundo ele, houve um avanço do consumo de jogos por crianças e adolescentes, assim como prejuízos sociais acumulados mesmo após a regulamentação inicial de 2023.

“É difícil conseguir barrar tudo isso. E como não estava havendo uma fiscalização mais rigorosa quanto às bets, elas se espalharam de uma forma viral e começaram a causar muitos danos. Então, apesar de haver receita de arrecadação para o governo federal, as bets causaram gastos demasiados com saúde pública, principalmente para pessoas diagnosticadas com dependência patológica. Isso também gerou um problema social, e essa é a principal justificativa que fez com que o governo proibisse”, disse.

O que muda com a nova medida provisória?

A Medida Provisória nº 1.394, publicada em 25 de setembro de 2026, deixou expresso que a proibição das apostas de quota fixa não se aplica às demais modalidades lotéricas autorizadas por lei. Ou seja, a medida não extinguiu as loterias tradicionais da Caixa, mas proibiu a exploração por empresas anteriormente autorizadas pelo Ministério da Fazenda, as apostas de quota fixa, modalidade de loteria em que o apostador sabe com precisão qual será o seu prêmio caso acerte o palpite no momento exato em que faz a aposta, normalmente em competições esportivas.

Outro ponto importante é que a proibição não significa que todas as bets deixarão de operar imediatamente. A MP determinou que as autorizações concedidas com base na Lei nº 14.790, de 2023, sejam extintas ao fim de um período de transição de 30 dias. Durante esse período, permanecem algumas obrigações, como impedir o cadastro de novos apostadores, para o encerramento das operações e a restituição de valores aos usuários das plataformas.

Assim, a diferença não está simplesmente em “uma aposta ser permitida e outra não”. O que mudou foi o regime jurídico das apostas de quota fixa. As loterias tradicionais continuam autorizadas porque possuem outra base legal e não estão incluídas na proibição determinada pela nova medida provisória.

Proibição de jogos privados já ocorreu outras vezes no Brasil

Não é a primeira vez que os jogos de azar explorados por entes privados são proibidos no Brasil. Historicamente, a postura das autoridades brasileiras sempre foi bastante restritiva quanto à jogatina, consolidando um modelo em que a exploração de jogos de azar é proibida como regra geral, cabendo ao Estado o controle das poucas exceções permitidas. O arcabouço jurídico dessa proibição geral teve como marco principal a Lei de Contravenções Penais de 1941, editada durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, que criminalizou formalmente tais práticas no país.

Antes e depois dessa legislação, diferentes modalidades privadas sofreram restrições e banimentos diretos. O jogo do bicho, criado em 1892 como iniciativa do empresário João Batista Viana Drummond para o zoológico do Rio de Janeiro, começou a ser punido pelo poder público em 1899, antes de ser enquadrado na clandestinidade em 1941.

Já os cassinos físicos operados pela iniciativa privada, que haviam sido mantidos como exceção durante a era Vargas, foram expressamente proibidos em 1946 pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, que anulou suas licenças de funcionamento. A partir de então, estabeleceu-se o monopólio estatal sobre as loterias como serviço exclusivo do setor público.

Após terem sido liberados na década de 1990 como uma exceção voltada ao financiamento do esporte (por meio das leis Zico e Pelé), esses estabelecimentos privados voltaram a ser proibidos em 20 de fevereiro de 2004. Na ocasião, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou uma Medida Provisória banindo o funcionamento de bingos e caça-níqueis em todo o território nacional após o escândalo de corrupção envolvendo Waldomiro Diniz e o bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Dinheiro das apostas é transformado em recursos sociais

As duas modalidades têm repasses obrigatórios para áreas sociais, mas em proporções diferentes. Nas Loterias da Caixa, cerca de 48% da arrecadação é destinada por lei a setores como seguridade social, segurança pública, esporte, cultura, educação e saúde. As bets previam uma destinação social com percentual menor: 12% da arrecadação líquida, após o pagamento de prêmios e do Imposto de Renda. Os recursos são destinados a áreas como esporte, turismo, educação e saúde.

Além dos repasses, a legislação das bets prevê medidas de proteção aos apostadores, como restrições à publicidade, mecanismos para impedir o acesso de pessoas proibidas de apostar e ações de prevenção e tratamento da dependência em jogos.

Em 2025, a arrecadação legal das loterias da Caixa garantiu R$ 12,2 bilhões em repasses sociais para o financiamento de políticas públicas, com destinações prioritárias para a Seguridade Social (R$ 4,46 bilhões), Segurança Pública (R$ 2,54 bilhões) e Esporte (R$ 1,92 bilhão), além de aportes na Cultura (R$ 745 milhões), Educação via Fies (R$ 474 milhões) e outras áreas essenciais (R$ 2,06 bilhões) — ritmo que se mantém acelerado em 2026, somando mais de R$ 6,92 bilhões até agosto.

Fontes consultadas: O Comprova consultou a Medida Provisória nº 1.394/2026, as Leis nº 13.756/2018 e a nº 14.790/2023. Para entender a regulamentação e os repasses das loterias federais, foram consultadas as informações oficiais da CAIXA. A investigação também ouviu o doutor em Direito Constitucional Berto Igor Caballero, que explicou as diferenças jurídicas entre as bets e as loterias federais e as justificativas relacionadas à decisão do governo.

Por que o Comprova contextualizou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta nesse monitoramento um tema que está sendo descontextualizado, o Comprova coloca o assunto em contexto. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O Comprova já investigou por que as apostas digitais não garantem retorno financeiro. Também verificou que é falso que o número de apostas na Mega-Sena tenha caído após o crescimento das bets. O UOL e Terra publicaram investigações sobre o assunto.

Eleições

Investigado por: 02/10/2026

Vídeo de carteiro entregando propaganda do PT omite contexto sobre Mala Direta; entenda serviço

Eleições
Material de Ricardo Coutinho, candidato a deputado federal pela Paraíba, foi distribuído por meio de Mala Direta, serviço dos Correios disponível para campanhas eleitorais.

Ao contrário do que sugere uma publicação no X, os Correios não estão fazendo propaganda eleitoral do PT. A gravação registra uma pessoa com o uniforme da empresa entregando panfletos com o número 1313, de Ricardo Coutinho, candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) a deputado federal pela Paraíba, e o post na rede social pede para que o público acione o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para intervenção. 

No entanto, a entrega de material de campanha por meio dos Correios, não é irregular. A prática está prevista na Lei nº 6.538/78 e é realizada por meio do serviço de Mala Direta — inclusive, o próprio material entregue está identificado dessa forma — , segundo os Correios afirmou ao Comprova. A empresa declarou que o panfleto que o carteiro entregava é um “objeto postal regular, disponível a todos os clientes que sejam candidatos a cargos eletivos, partidos políticos, comitês eleitorais e agências de publicidade, para o envio de propaganda eleitoral e material relacionado à campanha”. 

I Legenda: Captura de tela do vídeo verificado mostra panfleto identificado como parte do serviço de Mala Direta, com entrega “não endereçada” I

 

Ainda segundo a empresa, as peças de campanha devem ser identificadas no momento da postagem e seguir exigências estabelecidas pela Justiça Eleitoral. Os Correios também informaram  que prestam serviços relacionados ao processo eleitoral, incluindo o transporte de urnas, mídias eletrônicas e materiais de apoio aos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs). Dessa forma, ao contrário da narrativa da publicação, a entrega de propaganda eleitoral pelos Correios, quando realizada dentro das regras previstas em lei, constitui um serviço regular oferecido pela empresa.

A análise do Comprova não encontrou indícios de que o vídeo tenha sido gerado ou modificado por inteligência artificial (IA). 

O que é Mala Direta? 

É um serviço dos Correios para enviar materiais impressos a várias pessoas ou endereços, geralmente com finalidade de divulgação. A empresa pode contratar a atividade para distribuir folhetos, catálogos, ofertas ou convites. 

Em época de eleição, candidatos, partidos e comitês também podem usar o serviço para distribuir propaganda eleitoral, isso não significa que os Correios esteja realizando propaganda eleitoral, e sim prestando um serviço de distribuição.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova 

Até 2 de outubro, a postagem já contava com 32,7 mil visualizações no X, e foi criada por um perfil com 98 mil seguidores nessa rede social; no Instagram, possui 52,8 mil seguidores. O usuário afirma ser jornalista e analista político. O usuário mantém, no X e Instagram, publicações contra o candidato à Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva e ao PT. Outras postagens expressam apoio político ao candidato Flávio Bolsonaro (PL).

O Comprova contatou o usuário através de seu Instagram e via e-mail, mas não obteve retorno até a publicação deste texto. 

Por que as pessoas podem ter acreditado

A postagem utiliza diversas técnicas de persuasão que buscam fazer com que o leitor acredite que os Correios estão realizando campanha  política. A estratégia mais proeminente é o apelo emocional no início da publicação, com a expressão “Flagrante”. Esse recurso tem como objetivo provocar uma reação imediata no público, antes que ele verifique a informação.  

Em seguida, a frase “Marquem o TSE até eles responderem!” introduz uma chamada para ação urgente, estimulando a mobilização imediata e o engajamento coletivo, que aumenta a circulação da postagem. Também é possível identificar a técnica de enquadramento narrativo, pois a legenda do post já direciona o público para uma interpretação específica, mesmo que o vídeo da publicação não ofereça todo o contexto necessário para afirmar se os Correios estão realizando propaganda política ou não.

Além disso, essa acusação também se relaciona com o viés de confirmação do público, levando pessoas que já possuem determinadas crenças políticas a aceitarem a narrativa sem exigir comprovação adicional. A postagem ainda explora a desconfiança institucional, ao sugerir que um órgão público estaria envolvido em uma prática irregular. 

Fontes que consultamos: O Comprova utilizou a ferramenta de detecção de IA, Hive Moderation para ver a veracidade do vídeo. Além disso, contatamos os Correios e procuramos a campanha de Ricardo Coutinho e o autor da publicação. Ambos não responderam até a publicação deste texto. 

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: 

O Comprova já verificou outros conteúdos que apresentavam informações descontextualizadas sobre os Correios, como publicações sobre o déficit da empresa e um empréstimo de R$ 20 bilhões. Em 2022, também investigou um caso semelhante, em que um carteiro foi acusado de distribuir material de campanha de forma ilegal, mas a apuração mostrou que se tratava do serviço de Mala Direta. 

Notas da comunidade: O conteúdo investigado não possuía notas no X até a publicação deste texto.

Eleições

Investigado por: 02/10/2026

Vídeo de Xuxa criticando declaração sobre menores é de 2022 e foi direcionado a Bolsonaro

Eleições
Gravação antiga refere-se à fala do ex-presidente sobre meninas venezuelanas, e não ao atual governo.

A apresentadora Xuxa não gravou um vídeo criticando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, e pedindo para as pessoas não votarem nele, ao contrário do que afirma uma publicação no Instagram que também viralizou no Threads. 

É falso o conteúdo do vídeo, que mescla imagens de Xuxa com trechos de declarações de Lula, atribuindo ao presidente “falas criminosas”. As imagens da apresentadora no vídeo são reais, porém, são de 2022, e o alvo das declarações dela era, na ocasião, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). 

Por meio do Google Lens, o Comprova verificou que o vídeo original é de outubro de 2022, quando Xuxa Meneghel pronunciou-se sobre uma declaração do então presidente Bolsonaro, em que ele afirmou que “pintou um clima” com adolescentes venezuelanas em situação de vulnerabilidade. 

 

I Legenda: Análise da imagem no Google Lens I

 

Depois da repercussão do vídeo analisado pelo Comprova, a própria Xuxa se manifestou no Instagram e pediu aos seguidores que denunciassem caso encontrassem conteúdo falso com a sua imagem. 

“Esse vídeo de 2022 foi pra colocar a minha indignação e nojo às falas do ex-presidente da República e, hoje, prisioneiro. Sou contra a homofobia, racismo, machismo, capacitismo e qualquer preconceito religioso, mas apoiar a exploração sexual de crianças e adolescentes, dizendo “que pintou um clima” ao ver uma menina de 13-14 anos, continua me dando nojo em 2026 e em qualquer ano da minha vida. Quem acreditou que eu poderia estar falando do nosso atual presidente não me conhece mesmo”, afirmou Xuxa.

Contexto das declarações de Lula

O vídeo publicado no Instagram utilizou uma série de falas de Lula em eventos ao longo dos últimos anos. A mais recente foi uma declaração do presidente durante um discurso no final de setembro, em Belém, no Pará, sobre a prevenção do câncer de próstata. 

Segundo registros do evento, o presidente comemorou a realização do que ele dizia ser a primeira cirurgia robótica para retirada de tumor na próstata pelo Sistema Única de Saúde (SUS), ocorrida no Pará. No contexto da fala, em que comemorou o feito, Lula criticava a resistência e o preconceito dos homens em relação ao exame de toque retal para a prevenção do câncer de próstata, utilizando os seguintes termos: “O homem não gosta de fazer teste de próstata. Ele não gosta de toque. As mulheres aprendem a tomar toque desde pequenas. O homem não, ele é cheio de trejeito. Ele não sabe que, quando ele tiver câncer de próstata, vão dar muito toque nele.”

A fala “mulheres aprendem a tomar toque desde pequenas” gerou reações da oposição, dizendo que ele estaria normalizando o abuso infantil, o que não é verdade. Depois da polêmica, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou a remoção de publicações que descontextualizam a declaração.

Outro trecho do vídeo verificado em que o autor mostra falas de Lula é de um evento realizado em julho de 2024, durante a entrega de moradias do Minha Casa, Minha Vida, no Recife (PE). Na ocasião, o presidente mencionou a história de um homem contemplado com uma casa do programa e, ao relatar a história de amor do casal e revelar que o homem que recebeu a chave estava apaixonado pela esposa há 28 anos, Lula falou : “ele casou com a menina [a esposa] ela tinha 12 anos, e ele ainda está apaixonado por ela, há 28 anos”. Por causa desta fala, acabou criticado por opositores por uma suposta normalização da união entre adultos e menores de idade. 

Outra frase de Lula destacada pelo vídeo é de 2022, durante participação no Flow Podcast, em meio à campanha para o segundo turno da eleição presidencial. O trecho mostra apenas Lula dizendo: “Eles são capazes de dizer que você nasceu mulher e, depois, virou homem” e associa a declaração a um caso de homofobia. Na fala completa, porém, o presidente falava sobre a propagação de desinformação na internet e criticava a estratégia de opositores políticos. Ele afirmou: “As coisas absurdas que eles inventam todos os dias não têm critérios. Eles são capazes de dizer que você nasceu mulher e, depois, virou homem. São capazes de dizer que vacas voam e que cavalo tem chifre e boi não tem”.

O vídeo analisado pelo Comprova descontextualiza uma fala em que Lula comenta a inclusão da foto de um homem negro sem dentes em uma revista que seria divulgada na Alemanha.

A postagem enganosa omite o trecho em que ele relata a própria reação: “Você não acha que isso é preconceito? Eu lembrei do Joãozinho Trinta (ex-carnavalesco da Beija-Flor): ‘Quem gosta de miséria é intelectual, pobre gosta de coisa boa’. Eu falei para ele: ‘Você pode anular essa revista, joga essa página fora e faz uma foto de um cara com dente’. E aí eu resolvi criar o Brasil Sorridente.”

Um trecho do vídeo que atribui ao presidente uma fala racista foi gravado em 2024, durante um evento na fábrica da Volkswagen, em São Bernardo do Campo (SP). Na ocasião, Lula chamou atenção para a jovem Luiza Eduarda Leôncio, que estava no palco após ser premiada como destaque e melhor aprendiz da empresa, e afirmou: “uma afrodescendente assim gosta de um batuque de um tambor”.

Antes da fala, o presidente havia perguntado quem era a jovem e feito algumas suposições sobre sua presença no palco. Primeiro, disse que ela poderia ser cantora. Ao saber que não haveria apresentação musical, afirmou que ela poderia “batucar alguma coisa”. Em seguida, perguntou se ela era namorada de alguém, antes de descobrir que Luiza havia sido premiada por seu desempenho profissional e recebido um prêmio na Alemanha.  

Quem criou a postagem

O vídeo foi publicado por um perfil no Instagram com cerca de 23,1 mil seguidores que divulga conteúdos conservadores e alinhados à direita, incluindo críticas à imprensa e à Igreja Católica. 

Por que as pessoas podem ter acreditado

O post cria um forte apelo emocional, especialmente por meio de referências a crianças, maternidade, culpa e indignação. 

Ao declarar diretamente ‘não vote nesse homem’, o conteúdo tenta induzir o internauta a acreditar que Lula apoia a exploração sexual de crianças. Para isso, recorre a táticas como a inserção de um contexto falso e a seleção tendenciosa (cherry-picking) de trechos descontextualizados e justapostos.

A declaração descontextualizada da apresentadora recorre à tática de deslegitimação, ao estimular o público a pensar sob a lógica do “nós contra eles”, transformando a escolha eleitoral em um dever moral inegociável.

Fontes que consultamos: O Comprova realizou buscas em sites de notícias sobre o assunto, bem como pesquisou declarações da apresentadora Xuxa Meneghel feitas em outubro de 2022. Além disso, a equipe do Comprova entrou em contato com a assessoria da apresentadora, embora ela já tivesse  se manifestado oficialmente em seu perfil no Instagram.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já havia checado um conteúdo em 2025 que distorcia a fala de Lula sobre fotografia de um homem negro, durante um evento em São Paulo. O Estadão Verifica publicou que Lula comentou sobre câncer de próstata em discurso, e não sobre abuso infantil, bem como a fala a que se refere a um homem sem dentes.

Eleições

Investigado por: 01/10/2026

Vídeo antigo de padre contra o PT é usado fora de contexto como convocação para eleição de 2026

Eleições
Gravação que viralizou recentemente foi feita durante transmissão da TV Canção Nova e mostra sacerdote José Augusto Souza Moreira falando sobre a então candidata Dilma Rousseff.

Ao contrário do que afirmam vídeos publicados no X e no TikTok, o padre José Augusto Souza Moreira não convocou os fiéis da Igreja Católica a não votar no Partido dos Trabalhadores (PT) nas eleições de 2026. O vídeo é um recorte de uma transmissão ao vivo realizada no dia 5 de outubro de 2010, na TV Canção Nova. Na ocasião, o sacerdote afirmou: “No PT eu não voto”, referindo-se à ex-presidente Dilma Rousseff, que, na época, disputava o segundo turno das eleições. 

Sermão é antigo e descontextualizado

Diante da repercussão do sermão, a representação da ex-presidente afirmou, na época, que o padre teria emitido opiniões ofensivas contra ela e o partido. “Dentre outras afirmações falsas e ofensivas, de cunho difamatório e calunioso, o referido padre afirma que o PT é a favor da interrupção de gestações indesejadas”, diz o texto. Por conta disso, Dilma e a coligação pediram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o tempo de 15 minutos como direito de resposta, a ser transmitido no horário matutino, assim como foi a transmissão do sermão. A Canção Nova ofereceu oito minutos em um acordo extrajudicial, mas a relatora, ministra Nancy Andrighi, rejeitou o acordo e afirmou que caberia à Justiça Eleitoral decidir sobre eventual direito de resposta.

Em resposta, a Fundação João Paulo II, mantenedora do Sistema Canção Nova de Comunicação, divulgou nota afirmando que a instituição “não apoia, não subsidia e não possui vínculos com partidos e candidatos”. A entidade também disse não ter autorizado as declarações do sacerdote sobre o PT e ressaltou que elas representavam apenas a opinião dele. 

Posicionamento da CNBB 

Questionada pelo Comprova sobre as orientações e manifestações da Igreja Católica no Brasil em relação às eleições, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) respondeu que, diante de posicionamentos de padres nas redes sociais, a orientação é procurar a assessoria de comunicação da diocese ou da congregação à qual o sacerdote pertence para esclarecer as manifestações. 

A entidade também ressaltou que os bispos reafirmam o compromisso da Igreja com a promoção da vida, da dignidade humana e do bem comum, além de destacarem a importância da participação consciente dos cidadãos no processo eleitoral.

Atualmente como está o padre 

Nascido em 1966 e natural de Maraú (BA), José Augusto continua atuando como sacerdote da Canção Nova, em São Paulo. Em 2026, a comunidade divulgou sua participação em eventos e atividades religiosas, incluindo a Quaresma de São Miguel Arcanjo e o Rebanhão.

O sacerdote tem um canal no YouTube com 238 mil inscritos, onde compartilha homilias, pregações, catequeses e formações em áudio e vídeo.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

O perfil responsável pela publicação da postagem no X pertence a um homem que vive na Flórida, nos Estados Unidos, e trabalha com “consultoria estratégica com Expertise Executiva e Real Estate”. O usuário está ligado à empresa Conexão USA, focada em investimentos em dólar e planejamento imobiliário para quem deseja se mudar para os Estados Unidos. 

Com 254,2 mil seguidores, o perfil segue outros 209 mil usuários no X. Grande parte dos perfis seguidos se apresentam como pastores ou alinhados com a vertente política da direita conservadora. As publicações da página analisada no X misturam vídeos de casas nos Estados Unidos, compartilhamentos de notícias e postagens sensacionalistas contra Lula e outras autoridades do governo federal e do Supremo Tribunal Federal (STF). O usuário deixa claro seu posicionamento político a favor do senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) e também realiza correntes de orações. 

A questão religiosa, porém, está mais presente no perfil do Instagram do mesmo usuário. O usuário divulga preces em posts gerados por inteligência artificial (IA) e também mantém, nesta rede social, outros posts que divulgam seu trabalho na Conexão USA. 

O Comprova contatou o usuário pelo Instagram, mas não obteve retorno até a publicação deste texto. 

O vídeo analisado nesta verificação também foi divulgado no TikTok por outro perfil. O usuário costuma publicar vídeos relacionados à pregações de autoridades da igreja católica e também faz postagens contra Lula e o PT. 

Por que as pessoas podem ter acreditado

O vídeo apresenta a descontextualização de um discurso do sacerdote, datado de 2010, reunindo elementos verdadeiros, mas apresentados de forma enganosa e como se fossem atuais. Com isso, a publicação cria a impressão de que o sacerdote estaria fazendo uma convocação aos católicos para que não votassem no PT, estabelecendo uma falsa conexão entre a fala original e o contexto eleitoral.

A publicação também utiliza o apelo à autoridade, ao recorrer à figura de um líder religioso para dar mais peso à mensagem. A própria manchete, “Urgente. Padre convoca toda a Igreja Católica para não votar no PT”, reforça essa narrativa ao transformar a fala de um sacerdote em uma suposta orientação para toda a Igreja. Como o vídeo mostra o padre falando sobre o PT e dizendo que não votaria no partido, quem recebe o conteúdo sem conhecer o contexto e a data da gravação pode acreditar que se trata de uma declaração recente e que a fala representa uma posição oficial ou geral da Igreja Católica.

Fontes que consultamos: O Comprova investigou o perfil responsável pela publicação no X e no TikTok. Entramos em contato com a TV Canção Nova e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para obter um posicionamento sobre o caso. Além disso, consultamos uma matéria da IstoÉ sobre a repercussão da manifestação do Padre José Augusto nas eleições de 2010. O Comprova também pesquisou a nota divulgada pela Fundação João Paulo II e não a encontrou no site oficial da Canção Nova, mas seu conteúdo foi reproduzido por outros veículos e páginas na internet, inclusive por fontes que fizeram críticas ao posicionamento da emissora no episódio. 

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova checou publicações de desinformação religiosa sobre o posto de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, também verificou que Lula não disse que vai fechar igrejas caso seja eleito, como sugere mensagem e que áudio pró-Bolsonaro é de apóstolo da igreja Bola de Neve, e não do padre Fábio de Melo.

Comunicados

Em medida contra a desinformação eleitoral, Projeto Comprova poderá ser acessado sem cobrança de dados do celular

Eleições 2026
Decisão do STF vale no período entre as 72 horas antes da eleição e 24 horas depois e inclui também domínios da Justiça Eleitoral e de outras iniciativas de checagem.

Entre 72 horas antes da eleição, que será neste domingo (4), e 24 horas após o pleito, qualquer pessoa poderá acessar gratuitamente o site do Projeto Comprova, sem cobrança de dados móveis.

O pedido partiu da sociedade civil, que, por meio da iniciativa Democracia sem Franquia, ajuizou ação no Supremo Tribunal Federal (STF) contra a desinformação eleitoral. A ação foi confirmada em liminar pelo ministro Cristiano Zanin na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF). Segundo o magistrado, a desinformação que circula massivamente durante o processo eleitoral “pode induzir o eleitor a erro, causando dano irreparável à legitimidade das eleições”.   

Com a decisão, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) fica obrigada a garantir a gratuidade no período em ambos os turnos.

Além do Comprova, domínios da Justiça Eleitoral – sites com o final jus.br – e de outras iniciativas de checagem (Lupa, Aos Fatos, UOL Confere, AFP Checamos, Fato ou Fake, Estadão Verifica, E-farsas e Boatos.org) também poderão ser acessados sem que seja cobrado o consumo de dados.

A utilização de aplicativos da Justiça Eleitoral, como o e-título e o Boletim na Mão, também não gerará cobrança.

No sábado (3) e no domingo, o Comprova fará um plantão especial para verificar conteúdos de desinformação relacionados ao processo eleitoral. Além de poderem ler as verificações gratuitamente pelo celular, as pessoas poderão enviar sugestões para que a equipe as investigue. Basta escrever para o WhatsApp do Comprova (+55 11 97045-4984).

Ainda sobre eleições, foi lançado na semana passada o Consulte o Comprova, um serviço gratuito de consultoria voltado a jornalistas envolvidos na cobertura eleitoral em todo o Brasil. O Consulte o Comprova dará suporte a profissionais da imprensa que precisem de orientações para verificação de fatos, uso de ferramentas de investigação digital e checagem de conteúdos gerados por inteligência artificial (IA) direcionados às campanhas para o governo, o Senado e as câmaras federal e estaduais.

O atendimento é feito de forma simples e rápida pelo WhatsApp do Comprova.

Eleições

Investigado por: 30/09/2026

Vídeo de Lula no Paraguai é usado fora de contexto para sugerir constrangimento na ONU

Eleições
Publicação no X mistura uma gravação de junho com um episódio ocorrido em setembro na ONU e atribui ao presidente paraguaio uma ironia que não aparece no vídeo original.

Ao contrário do que afirma uma publicação no X, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não foi alvo de deboche por parte do presidente do Paraguai, Santiago Peña. Diferentemente do que o post afirma, o vídeo compartilhado não foi registrado na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada em setembro de 2026, mas sim em 30 de junho de 2026, durante a Cúpula do Mercosul, no Paraguai.

O conteúdo investigado utiliza um vídeo real, gravado em ambiente diplomático, com um texto sobreposto e uma legenda que alega que Peña teria agradecido a Lula por políticas que teriam levado empresas brasileiras a migrar para o Paraguai. Na gravação original, porém, quem dialoga com o presidente brasileiro é o senador paraguaio Beto Ovelar, enquanto Santiago Peña permanece em silêncio ao lado, apenas acompanhando a conversa.

No diálogo original, o senador paraguaio agradece a Lula pela cooperação e pelas políticas sociais implementadas durante os primeiros mandatos do brasileiro (entre 2003 e 2008). Ovelar ressalta que essas medidas serviram de inspiração para a criação do Tekoporã, o principal programa de transferência de renda do Paraguai. Não houve qualquer declaração sobre transferência de empresas, fuga de capitais ou desvantagens econômicas para o Brasil.

A publicação também associa indevidamente a gravação a outro episódio, afirmando que Lula teria “fugido” do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, na ONU, em 22 de setembro de 2026, em Nova York. O Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) esclareceu que não houve desvio deliberado nem recusa de contato por parte de Lula, mas apenas a dispersão das delegações em meio ao fluxo intenso e desordenado na saída do plenário.

Procurada pelo Comprova, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) informou que as publicações que circulam nas redes sociais são falsas.

Em nota, o órgão afirmou que Lula não teve qualquer encontro bilateral, nem mesmo informal, com o presidente do Paraguai, Santiago Peña, durante a Assembleia Geral da ONU em Nova York. A Secom confirmou que a gravação que acompanha o post enganoso foi feita em junho de 2026, na Cúpula do Mercosul, e registra o senador paraguaio Beto Ovelar agradecendo ao presidente brasileiro pelo apoio na formulação do programa Tekoporã.

Sobre o episódio com o representante do governo dos Estados Unidos, a Presidência afirmou que “não houve qualquer tentativa de impedir o acesso do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, ao presidente Lula durante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU)”. 

A pasta reforçou que Lula não se afastou deliberadamente de Rubio e declarou que “repudia a divulgação de informações falsas, com o uso da imagem do presidente, que visam única e exclusivamente desinformar a população, enfraquecer instituições e manipular a opinião pública”

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova 

A publicação foi divulgada na rede social X por uma página não institucional, criada em março de 2012 e que registrava cerca de 64,5 mil seguidores na data de início da apuração. Até segunda-feira (28), a postagem acumulava mais de 355,9 mil visualizações.

O Comprova buscou contato com os responsáveis pela conta para questionar a procedência da gravação, as fontes das afirmações e a autoria da edição que adicionou os textos sobrepostos, mas o perfil desativou a opção de mensagens diretas e privadas. 

Consultas realizadas em ferramentas de busca de perfis (como UserSearch) não identificaram contas ativas vinculadas publicamente a uma autoria identificável que reivindicasse a criação original da montagem. Pelo padrão das postagens e pelo perfil das contas seguidas pela página, observa-se uma linha temática de oposição ao governo federal, o que sugere intencionalidade política na disseminação de narrativas de constrangimento e de isolamento diplomático de autoridades brasileiras.

Por que as pessoas podem ter acreditado

O uso de imagens autênticas como base transmite uma impressão inicial de credibilidade e veracidade documental, já que o vídeo é legítimo e reúne figuras públicas reais (Lula, Santiago Peña e parlamentares em uma cúpula internacional), o que dificulta a percepção imediata de manipulação do contexto. A estratégia é reforçada pela barreira de idioma e pela sobreposição de texto condutora, pois a conversa original ocorre em espanhol e em meio a ruídos do salão diplomático, fazendo com que o texto em destaque sobre a imagem e as afirmações da legenda funcionem como uma legenda falsa que direciona a interpretação do leitor, induzindo-o a aceitar a versão escrita sem atentar para o áudio real.

Além disso, há uma mistura de temas reais da agenda recente ao juntar a gravação de junho com o episódio da passagem de Marco Rubio pela Assembleia Geral da ONU ocorrido em setembro, ancorando o conteúdo na memória recente das pessoas sobre o noticiário internacional para dar verossimilhança à narrativa criada. Por fim, observa-se o apelo a termos depreciativos e emocionais por meio de expressões agressivas e coloquiais como “fugiu”, “sacaneado” e “barrado”, que apelam diretamente à indignação ou ao deboche do leitor. Esse tipo de vocabulário ativa vieses cognitivos e ideológicos, estimulando o compartilhamento rápido por impulso e desestimulando a checagem factual sobre datas, locais e interlocutores.

Fontes que consultamos: O Comprova preservou a postagem investigada no Archive.today e, por meio de busca reversa, localizou a gravação original de 30 de junho nas redes sociais do senador paraguaio Beto Ovelar, além de descartar manipulação por IA com o Google SynthID. O episódio na ONU foi verificado com base em reportagem da TV Globo/G1 arquivada no Wayback Machine e em notas oficiais da Secom e do Itamaraty. A apuração consultou ainda a ferramenta UserSearch e as checagens da AFP Checamos e da Reuters Fact Check.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Outras iniciativas de checagem, como a AFP Checamos e a Reuters Fact Check, também verificaram o mesmo conteúdo, mostrando que Peña não agradeceu a Lula pela ida de empresas para o Paraguai.

Comprova Explica

Investigado por: 30/09/2026

Entenda as regras para participação de candidatos em debates na TV

Comprova Explica
Lista de convidados para o debate eleitoral segue a legislação e o regulamento do canal, e não vetos entre concorrentes.

Conteúdo analisado: Post no X afirma que Lula (PT) exigiu que Renan Santos (Missão) ficasse de fora do debate presidencial da Globo, que está marcado para quinta-feira (1°/10), como uma das condições para avaliar sua possível participação. A publicação repercute a apuração de bastidores de um jornalista, citada durante uma transmissão ao vivo. 

Comprova Explica: De acordo com apuração do Comprova, as regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinam que devem ser aptos a participar dos debates transmitidos na televisão candidatos e candidatas filiados a partidos com representação no Congresso Nacional de, no mínimo, cinco parlamentares. Já os demais candidatos que não atendem a esse critério podem ou não ser convocados pelas emissoras.  

Ao Comprova, a assessoria da campanha de Lula disse que o presidente não condiciona sua participação em debates à presença de outros candidatos. A assessoria de Flávio Bolsonaro (PL) confirmou ao Comprova que ele irá ao evento na Globo, mas não comentou sobre a participação do candidato do Missão.

A emissora havia convidado inicialmente apenas quatro candidatos à presidência para o debate: Lula, Flávio, Augusto Cury (Avante) e Ronaldo Caiado (PSD). 

Na terça-feira (29), o presidente do TSE, o ministro Nunes Marques, determinou a inclusão do Novo nos debates das eleições de 2026. A medida garante a presença de Romeu Zema nos debates da eleição presidencial. 

Até o momento, nem Flávio nem Lula participaram de debates em emissoras de TV. Segundo informações de bastidores, repercutidas por UOL e pela Folha de S.Paulo, o atual presidente pode repetir a ausência e não participar do encontro.

Questionada pelo Comprova sobre a suposta exigência de Lula, a Globo não retornou até o fechamento desta checagem. O espaço segue aberto.

O que disse Renan Santos sobre o caso?

Procurada pelo Comprova, a campanha de Renan Santos respondeu que não teve acesso às tratativas entre a TV Globo e as demais campanhas e, por isso, não afirma que houve uma exigência formal do presidente Lula. 

Sobre o convite, informou que Renan não integrou a lista de convidados apresentada pela Globo em 23 de setembro, definida com base no critério legal de representação parlamentar. 

A respeito do termo “desconvite” usado pelo candidato, a campanha afirma tratar-se de uma crítica política, pois a emissora reduziu o debate de sete para quatro participantes em 2022. Alega ainda que a medida acabou deixando o candidato do Missão de fora. “A campanha defende que a Globo torne públicos os critérios e reavalie a composição do debate”, afirma.

Em nota oficial, o Missão afirma que usar apenas esse critério reduz o espaço para novas forças políticas no principal debate presidencial da televisão brasileira. Além disso, dificulta o contato direto do eleitor com todos os candidatos à presidência da República. Na segunda-feira (28), o partido confirmou que vai realizar um ato em frente à sede da emissora no dia 1º de outubro, no Rio de Janeiro.

O que dizem as regras do TSE sobre debates?

Pelas regras do Tribunal Superior Eleitoral, devem ser considerados aptos a participar dos debates transmitidos na televisão candidatos e candidatas filiados a partido com representação no Congresso Nacional de, no mínimo, cinco parlamentares no último pleito.  

O Novo tinha cinco deputados federais em exercício antes de 20 de julho, prazo para o início das convenções partidárias, e argumentou ao TSE que a representação deveria refletir a composição atual.  

Nunes Marques considerou que a ausência dos candidatos nos debates marcados para os próximos dias “produziria efeito de difícil reversão” caso o pedido fosse analisado posteriormente, o que possibilitou a inclusão de Zema e dos candidatos ao governo do Rio de Janeiro, André Marinho, e do Distrito Federal, Kiko Caputo. 

Os debates serão realizados conforme as regras estabelecidas no acordo celebrado entre os partidos e a emissora e deverão ser comunicados à Justiça Eleitoral. A legislação prevê que as emissoras podem convidar candidatos que não atendam a esse critério, mas não são obrigadas a fazê-lo. 

Além disso, as regras do debate não podem excluir candidatos com participação assegurada. Também não é permitido retirar um candidato de participação facultativa do encontro depois que ele tiver sido convidado pela emissora.

Fontes que consultamos: O Comprova consultou a assessoria de imprensa da Globo e as campanhas de Lula, de Renan Santos e de Flávio Bolsonaro. Também checou as regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre participação em debates.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre as publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já verificou que é falso um áudio que Renan Santos teria enviado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro afirmando que o colocaria na “cadeia”.

Comprova Explica

Investigado por: 28/09/2026

Entenda como projeto arquivado e postagens nas redes alimentaram desinformação religiosa

Eleições
Conteúdos fora de contexto incitam rivalidade entre católicos e evangélicos às vésperas das eleições.

Conteúdo analisado: Post nas redes sociais que afirma que o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL), se eleito, vai tirar Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira do Brasil, com base em um projeto de lei de 2007, que foi arquivado no ano seguinte. A GloboNews discutiu o assunto no programa “Em Pauta”.  

Comprova Explica: Segundo apuração do Comprova, Flávio não fez tal afirmação nem indicou ter feito tal movimento. Além disso, diferentemente do que os posts afirmam, a iniciativa relacionada ao título de Nossa Senhora Aparecida, proposta por evangélicos, ocorreu em 2007, por meio de um projeto de lei do então deputado federal Professor Victório Galli, à época filiado ao PMDB de Mato Grosso. O texto sugeria substituir a expressão “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”, mas a sugestão foi arquivada em 2008. 

Diante da repercussão do assunto às vésperas da eleição — a hashtag #respeitemnossapadroeira ficou entre os assuntos mais comentados do X em 26 de setembro —, a seção Comprova Explica traz detalhes sobre o tema.

Entenda polêmica envolvendo Flávio, GloboNews e padroeira

Durante um compromisso de campanha em São Paulo nesta segunda-feira (28), Flávio Bolsonaro agradeceu à Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB) por “confirmar” que a polêmica relacionada à Nossa Senhora Aparecida “é uma grande fake news”. Um dia antes, no domingo, o candidato afirmou que o PT “estava havia alguns dias tentando levantar essa fake news e conseguiu com a ajuda de gente de dentro da CNBB”. 

Os fatos mais recentes ilustram apenas uma parte da polêmica. A situação começou ainda no dia 24 de setembro, quando um comentário da jornalista Maria Cristina Fernandes no programa “Em Pauta”, da GloboNews, repercutiu nas redes sociais. Ela afirmou que havia um grupo de evangélicos se mobilizando após um projeto de lei que visaria rebaixar o título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. Após a fala, diversos internautas comentaram o assunto, e o próprio Flávio Bolsonaro se pronunciou, afirmando que tal projeto não existia. Mais tarde, a GloboNews se retratou com um pedido de desculpas pela afirmação.A CNBB, contudo, não desmentiu a afirmação da jornalista.

A atribuição de uma ameaça de Flávio à Igreja Católica já vinha sendo alimentada há mais tempo. No dia 23 de agosto de 2026, Flávio Bolsonaro se pronunciou em um vídeo publicado nas redes sociais após sua ausência no debate promovido pela Band no dia 22, no qual disse: “Eu quero debater com quem não acredita em Deus. Porque, quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.

A fala de Flávio gerou debates nas redes e chegou até o programa “Em Pauta” do dia 24 de setembro. Ela foi associada ao Projeto de Lei 2.623/2007, do então deputado federal Professor Victório Galli, que propunha substituir a expressão “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. 

Na sexta-feira (25), o ministro André Mendonça, vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou que as plataformas online retirassem do ar as publicações que continuassem a associar Flávio ou sua família à retirada do título de Nossa Senhora Aparecida. No domingo (27), o ministro Flávio Dino derrubou a decisão de Mendonça. 

No mesmo dia, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil divulgou uma nota de esclarecimento e afirmou que  “não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao atual processo eleitoral”. Além disso, disse que “não integra qualquer estrutura político-partidária, de partido ou candidatura”.

Para a pesquisadora em Comunicação, Religiões e Política e editora-geral do Coletivo Bereia, Magali Cunha, o que está acontecendo nas eleições de 2026 é inusitado, pois envolve Nossa Senhora Aparecida, símbolo máximo do catolicismo no Brasil. 

“Essa discussão nas redes, dizendo que a afirmação de Flávio em relação a Jesus representa um projeto de destruição da força católica no país, é uma versão dessa disputa identificada na Câmara Federal transbordando para a campanha eleitoral”, destaca.

Existe projeto de lei para retirar o título de padroeira?

O título de Nossa Senhora Aparecida foi oficialmente reconhecido pela Igreja Católica em 1930, quando o papa Pio XI proclamou Nossa Senhora Aparecida como rainha e padroeira principal do Brasil. Além disso, a Lei Federal nº 6.802, de 30 de junho de 1980, instituiu o feriado nacional de 12 de outubro e reconheceu oficialmente Nossa Senhora Aparecida como padroeira do país.

O Projeto de Lei 2.623/2007 é antigo, foi apresentado no dia 12 de dezembro de 2007, pelo então deputado federal Professor Victório Galli, que buscava alterar a Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980, que declara 12 de outubro como feriado nacional para culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida. O texto da proposta do então deputado sugere substituir a expressão “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos” na data comemorativa em questão. No entanto, o projeto foi rejeitado de forma unânime pela Comissão de Educação e Cultura em agosto de 2008 e foi arquivado no mesmo ano.

O autor do projeto também é pastor da Assembleia de Deus. Exerceu mandatos como deputado federal pelo estado, tendo atuado como suplente entre 2007 e 2015 e como titular de 2015 a 2019, conforme reportagem do Estado de Minas. Em 2019, foi nomeado assessor especial da Presidência da República no governo de Jair Bolsonaro (PL), o que reforçou sua imagem como figura política alinhada ao ex-presidente.

Magali Cunha cita pesquisa do Instituto de Estudos da Religião (ISER) que monitorou projetos de lei de parlamentares com identidade religiosa, de 2023 a 2025. O estudo identificou a institucionalização de calendários e a patrimonialização de símbolos religiosos como pontos de disputa entre católicos e evangélicos na Câmara dos Deputados.

A pesquisadora ressalta que é nítido, com base nos dados do ISER, um movimento mais intenso de evangélicos propondo formas de homenagem do Estado, tentando promover símbolos como a Bíblia, a música gospel e as “mulheres de oração assembleianas”. Segundo Magali, isso configura uma forma de tentar conquistar mais espaço na cena pública.

A padroeira foi queimada por evangélicos em Goiás?

Outro post que viralizou neste fim de semana, publicado em 25 de setembro, afirma que evangélicos queimaram uma imagem da padroeira em Anápolis, em Goiás. No entanto, é mentira. O conteúdo, que alcançou 549 mil visualizações até a publicação deste texto, foi descontextualizado, como o Comprova verificou. 

Na verdade, o vídeo mostra um incêndio ocorrido em julho, em Nerópolis. De acordo com investigação da Polícia Civil no caso, as velas acesas durante o pagamento de uma promessa de fiéis podem ter provocado o fogo; polícia descartou vandalismo e intolerância religiosa por parte de evangélicos. O caso foi registrado pelos veículos Diário de Goiás e  G1.

Evangélicos vão a Aparecida para distribuir panfletos contra a padroeira?

Um vídeo de 2025 voltou a circular após a divulgação de conteúdos relacionados a evangélicos, que são apoiadores de Flávio Bolsonaro. O conteúdo foi publicado por uma página de notícias na plataforma X, com mais de 136 mil seguidores, e contava com mais de meio milhão de visualizações até o encerramento desta verificação. 

O vídeo em questão mostra uma van apontada como pertencente a evangélicos que estariam distribuindo panfletos contra a padroeira no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, na cidade de Aparecida, em São Paulo.  No entanto, o Comprova não encontrou qualquer evidência ou reportagem sobre o assunto, apenas publicações de páginas ou blogs católicos. 

Fontes consultadas: O Comprova consultou o projeto de lei apresentado em 2007, sites de notícias e dados do Instituto de Estudos da Religião. Entrevistou a pesquisadora em Comunicação, Religiões e Política e editora-geral do Coletivo Bereia, Magali Cunha.

Por que o Comprova contextualizou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta nesse monitoramento um tema que está sendo descontextualizado, o Comprova coloca o assunto em contexto. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: UOL e Aos Fatos checaram conteúdo semelhante. Na eleição de 2022, o Comprova verificou ser falso que Lula teria dito que fecharia igrejas caso fosse eleito.

Política

Investigado por: 25/09/2026

Imagem de Moraes desembarcando de avião ligado a Vorcaro é verdadeira

Política
Foto em que ministro aparece desembarcando ao lado de sua esposa Viviane é um recorte de vídeo publicado originalmente pelo O Globo; ferramentas de análise não identificaram geração por inteligência artificial.

Ao contrário do que afirmam algumas publicações no X, a imagem do ministro Alexandre de Moraes, ao lado de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, desembarcando de uma aeronave ligada ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, é verdadeira e não foi gerada por inteligência artificial (IA). A foto analisada pelo Comprova é uma captura de tela de um vídeo, publicado inicialmente pelo O Globo e posteriormente reproduzido nas redes sociais, com a adição da frase: “Não é Alexandre de Moraes”. 

Após a divulgação das imagens, surgiram diversas versões sobre os voos. O ministro manteve a afirmação de que nunca havia viajado em aeronaves de Vorcaro. Já o escritório de sua mulher confirmou que contratou serviços de táxi aéreo da empresa ligada ao ex-banqueiro. Em nota, o escritório afirmou que, em determinadas viagens, Viviane foi acompanhada pelo marido. 

O Comprova submeteu a imagem ao Undetectable AI, ferramenta de detecção de conteúdo gerado por IA, que apontou 76% de probabilidade de a imagem ser real. Na comparação com o vídeo publicado originalmente pelo O Globo, é possível observar que a imagem compartilhada nas redes sociais é um recorte ampliado da gravação, com menos pessoas ao redor e maior destaque ao ministro e sua esposa.

I Legenda: Análise feita pela plataforma Undetectable AI I

 

A imagem também foi analisada pelo Google Gemini, que apontou alteração apenas na inclusão da frase sobre a foto original. A ferramenta classificou o conteúdo como “contexto enganoso” e indicou que o vídeo utilizado como base é autêntico. 

I Legenda: Análise feita pelo Google Gemini I

 

O que Moraes ou Viviane disseram sobre voos em avião de Vorcaro?

Em março deste ano, a coluna de Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, revelou por meio do cruzamento de dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) e do Registro Aeronáutico Brasileiro (RAB), que Alexandre de Moraes e Viviane Barci de Moraes haviam realizado oito viagens em aeronaves de empresas ligadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. 

I Legenda: Dados cruzados pela Folha de S. Paulo I

 

Em resposta à coluna, o gabinete de Alexandre de Moraes afirmou em abril que a matéria era “fantasiosa” e que suas afirmações eram “absolutamente falsas”. “O ministro Alexandre de Moraes jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro ou em sua companhia e de Fabiano Zettel (cunhado de Daniel Vorcaro), a quem nem conhece”, completou. 

Na mesma época, o escritório Barci de Moraes, de Viviane Barci, informou que contrata diferentes serviços de táxi aéreo e que, entre as empresas utilizadas, estava a Prime Aviation, ligada à Prime You, empresa associada a Vorcaro. O escritório afirmou que, nos voos realizados por seus integrantes, Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel não estavam presentes e que todos os valores eram pagos mediante compensação de honorários advocatícios, conforme os contratos firmados. 

O escritório também declarou que nenhum de seus integrantes conhecia Zettel e que “jamais viajou em aviões de Daniel Vorcaro ou de Fabiano Zettel”. A nota ainda contestava as conclusões da reportagem, argumentando que os dados utilizados não permitiam identificar especificamente os passageiros dos voos. 

Em setembro, porém, o colunista d’O Globo Lauro Jardim divulgou um vídeo da Aviation TV (AVTV) que mostra Alexandre de Moraes e Viviane Barci desembarcando no Aeroporto Santos Dumont após um voo realizado em um Legacy 650 de prefixo PP-NLR, aeronave pertencente à Prime You. A publicação foi apresentada como evidência de que o casal utilizou ao menos uma aeronave ligada ao grupo empresarial de Vorcaro. 

Após a divulgação do vídeo, o escritório Barci de Moraes divulgou uma nova nota. Diferentemente da manifestação de março, o texto reconheceu que a Prime Aviation foi contratada em “determinadas ocasiões” e informou que, em alguns voos realizados pela empresa, Viviane Barci esteve acompanhada de Alexandre de Moraes. O escritório reiterou que Vorcaro não estava presente nas viagens e afirmou que a contratação dos serviços seguia “critérios operacionais,  sem “qualquer vínculo pessoal com os proprietários das aeronaves”. Também declarou que não possui contrato de prestação de serviços advocatícios com a Prime Aviation.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova 

O conteúdo investigado foi divulgado por duas contas no X. A primeira publicação, que alcançou 168,2 mil visualizações, foi feita por um perfil que se intitula socióloga e servidora pública e afirma ter posicionamento político de esquerda.

É possível que o perfil seja um bot, dada a velocidade com que essas publicações são feitas (muitas vezes postando vídeos longos ou notícias logo após o acontecimento), o que sugere o uso de ferramentas de automação (como o TweetDeck ou APIs de postagem) programadas para manter o perfil ativo 24 horas por dia.

Já a publicação do segundo perfil alcançou 313 mil visualizações. O usuário se apresenta no X como profissional do mercado financeiro e especialista em Order Flow. Na descrição do perfil, informa ter mais de 15 anos de atuação como trader, ser campeão brasileiro de pôquer e oferecer ferramentas e cursos relacionados ao mercado financeiro. 

Os dois perfis são verificados e comentam sobre assuntos políticos em alta. É possível que eles estejam utilizando as postagens para gerar engajamento e obter remuneração da plataforma. O Comprova entrou em contato com ambos os perfis, até a publicação desta matéria não obtivemos retorno. 

Por que as pessoas podem ter acreditado

Táticas como ataque à credibilidade e deslegitimação do conteúdo podem ter contribuído para que pessoas tenham acreditado no conteúdo da publicação. Quando o post aponta perfis de veículos de imprensa profissionais e alega que eles teriam cometido um “crime” por supostamente ter cometido um erro de identificação na imagem, a publicação busca minar a confiança do público no jornalismo profissional.

E ainda se combina à tática do apelo emocional e polarização, ao usar termos comemorativos que incitam o confronto. Somado a isso, o uso de recursos visuais chamativos, como caixas de texto sobrepostas afirmando que “NÃO É Alexandre de Moraes”, induz o leitor a uma conclusão precipitada antes mesmo que a imagem ou o vídeo possam ser devidamente checados ou contextualizados.

A provocação feita pela publicação estimula ainda o engajamento e o compartilhamento acelerado, fazendo com que o conteúdo viralize nas redes sociais antes que a verificação dos fatos possa ser feita.

Fontes que consultamos: O Comprova comparou a imagem investigada com o vídeo original publicado pelo O Globo e consultou as manifestações do escritório Barci de Moraes sobre os voos realizados pela Prime Aviation. A imagem também foi analisada pelas ferramentas Undetectable e Google SynthID, para verificar possíveis alterações e identificar a origem do conteúdo. 

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já verificou outras postagens envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, como um vídeo que defende que o ex-presidente Jair Bolsonaro poderia ser solto caso Moraes fosse preso e um conteúdo gerado por inteligência artificial que diz que o Jornal Nacional anunciou um pedido de prisão preventiva contra o ministro.

Notas da comunidade: Há uma nota da comunidade junto a um dos posts. Ela informa que  “a imagem foi aprimorada por IA, que pode reconstruir ou inventar detalhes ausentes na imagem original, especialmente em imagens de baixa qualidade, comprometendo a fidelidade aos detalhes reais” e fornece como link adicional uma página da Wikipédia sobre alucinações de inteligência artificial.

 

Eleições

Investigado por: 25/09/2026

Post atribui declaração a Ives Gandra sobre Lula, mas jurista desconhece o registro

Eleições
Publicação segundo a qual o advogado teria afirmado que votar no presidente significaria uma ‘tolerância moralmente insustentável com o crime e o criminoso’ voltou a circular nas redes sociais; ao Comprova, ele disse não se lembrar de ter falado ou escrito isso.

Uma publicação nas redes sociais atribui ao jurista Ives Gandra a declaração de que votar no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) significaria uma “tolerância moralmente insustentável com o crime e o criminoso”. A frase, porém, circula na internet desde 2022 e não há registro que comprove que tenha sido dita ou escrita por Gandra.

Na legenda, a postagem diz que a declaração teria sido citada pelo Jornal Correio Braziliense e pelo Supremo Tribunal Federal (STF). No entanto, o Comprova não encontrou quaisquer registros sobre a suposta fala de Ives Gandra em buscas nesses sites ou mesmo em outros.

Em agosto, Ives Gandra publicou em seu perfil oficial no Instagram que não se lembra de ter dito a frase sobre Lula, mas que poderia ter dito algo semelhante quando o presidente esteve preso, entre 2018 e 2019, em meio a apurações sobre casos de corrupção na Operação Lava Jato. 

Ao Comprova, Ives Gandra reiterou, por e-mail, que não se lembra de ter dado a declaração que circula nas redes sociais. “Há mais de 10 anos, de tempos em tempos, esta frase é publicada. Não me lembro de ter falado ou escrito, embora possa ter dito algo semelhante, quando esteve condenado e preso. Hoje, todavia, meu estilo é de defender ideias e não atacar pessoas.”

Convém acrescentar que, no dia 23 de setembro, o jurista fez uma publicação em seu perfil oficial no Instagram  declarando apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). 

Declaração é antiga e viral

Buscas realizadas pelo Comprova no Google e nos sites citados na publicação não encontraram a declaração atribuída a Ives Gandra. O registro mais antigo consta em uma coluna do jornalista Cláudio Humberto, publicada no Jornal do Commercio em 2022, que afirma que a frase, já atribuída a Ives Gandra, havia viralizado.

Quem criou a postagem e qual é o seu interesse na disseminação do conteúdo? 

A postagem foi publicada por uma página que se descreve como um portal de “notícias de política, economia, internacional e tudo mais que pode influenciar nos seus investimentos”. Os posts no Instagram – alguns com tons de crítica ao presidente Lula (PT) e elogiosos ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por exemplo – mostram o perfil alinhado à direita. 

Quanto ao interesse na disseminação do conteúdo envolvendo Ives Gandra, o Comprova identificou uma estratégia de persuasão política por parte do perfil analisado que faz associação de uma “suposta” narrativa de um jurista renomado com uso de elementos emocionais como indignação e medo diante do cenário político do país, incluindo a arte do post que destaca “tolerância moralmente insustentável com o crime e o criminoso”.

O post analisado teve 28,5 mil curtidas, 2,2 mil comentários e 20 mil compartilhamentos no Facebook até 24 de setembro. Já no Instagram, contou com 4,2 mil republicações e mais de 600 comentários até a mesma data. 

Táticas de persuasão

A imagem de Ives Gandra funciona como argumento de autoridade, dando uma aparência de autenticidade à publicação investigada, mesmo que a autoria da frase não tenha sido comprovada. Isso também explora o viés de confirmação do espectador, que tende a aceitar a afirmação sem verificar se ela está correta ou não. 

Além disso, o post destaca a expressão “tolerância moralmente insustentável com o crime e o criminoso”, associando o ato de votar em Lula a uma avaliação moral sobre corrupção. Como a frase já circulou anteriormente, a nova publicação pode, ainda, produzir um efeito de familiaridade e reforçar, entre os internautas, a percepção de que ela é autêntica. Ao questionar a ética do voto, a publicação pode provocar uma reação emocional e levar o internauta a se opor ao que foi afirmado. 

Por que as pessoas podem ter acreditado?

O jurista Ives Gandra da Silva Martins é advogado e professor universitário, com 44 títulos acadêmicos no Brasil e no exterior, tendo ganhado notoriedade como tributarista e constitucionalista. Dentre outras instituições, foi docente na Universidade Presbiteriana Mackenzie e na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme). Diante da sua atuação na área do Direito, o jurista é considerado uma fonte crível e respeitada por seus seguidores, principalmente por aqueles que se posicionam a favor de candidatos da direita.

Fontes que consultamos: O Comprova fez pesquisas no Google e em sites como o do Supremo Tribunal Federal e do jornal Correio Braziliense. Além disso, o Comprova analisou o perfil do jurista Ives Gandra no Instagram, assim como entrou em contato por e-mail com sua secretária para esclarecer a declaração.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já havia checado conteúdo similar. Além disso, iniciativas de checagem também verificaram conteúdos semelhantes relacionados à supostas declarações atribuídas ao presidente Lula, como a AFP, Estadão e UOL.