O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa, apartidária e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação para zelar pela integridade da informação que molda o debate público. O objetivo é oferecer à audiência uma compreensão clara e confiável dos acontecimentos e contribuir para a integridade do ambiente digital e para uma sociedade mais bem informada e resiliente à desinformação e a golpes e fraudes virtuais.
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Comprova Explica

Investigado por: 09/10/2026

Entenda como funciona o split payment, mecanismo de recolhimento de tributos que entra em vigor em 2027

Comprova Explica
Modelo previsto na Reforma Tributária brasileira não cria novos impostos, mas recolhe valores automaticamente durante o processo de compra.

Conteúdo analisado: Vídeo no TikTok alega que o split payment, novo mecanismo de recolhimento de impostos previsto na regulamentação da Reforma Tributária, faz parte de um sistema que cobrará uma espécie de pedágio sempre que um pagamento via Pix ou cartão for realizado. A publicação também afirma que o custo dessa mudança poderá chegar ao consumidor, já que haverá “retenção na fonte, afetando diretamente o capital de giro das empresas. E se faltar caixa, a empresa pode precisar buscar crédito. E crédito caro costuma virar custo para o produto”.

Comprova Explica: O split payment, ou pagamento dividido, é um mecanismo previsto na regulamentação da Reforma Tributária para recolhimento do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), que substituirá o ICMS e o ISS, e da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), que substituirá o PIS, a Cofins e o IPI, no momento em que uma transação de pagamento é liquidada. O modelo de recolhimento altera a forma como esses impostos são arrecadados, mas, por si só, não cria uma nova cobrança ao consumidor. Pela regra, os prestadores de serviços de pagamento eletrônico e as instituições que operam sistemas de pagamento devem separar a parcela correspondente aos tributos e repassá-la ao Comitê Gestor do IBS e à Receita Federal do Brasil (RFB). 

Na prática, o sistema relaciona a operação de compra ou venda ao respectivo pagamento para identificar o valor de IBS e CBS a ser recolhido. A lei prevê que o split payment seja aplicado às transações relacionadas à compra de bens ou à prestação de serviços.

A lei também estabelece um procedimento simplificado, no qual a parcela a ser separada é calculada com base em um percentual preestabelecido do valor da operação. Esse percentual é definido pelo Comitê Gestor do IBS e pela Receita Federal para os respectivos tributos.

Na primeira fase de funcionamento, o sistema vale apenas para negócios entre empresas, ou seja, entre pessoas jurídicas. Seu uso não é obrigatório, de modo que as empresas podem optar por utilizá-lo ou não. O split payment será liberado aos poucos e de forma opcional ao longo de 2027, e só deve se tornar obrigatório nas operações entre empresas em 2028.

Custo operacional

O grupo de trabalho interministerial criado pelo Ministério da Fazenda e pela Controladoria-Geral da União (CGU) estuda uma remuneração para as instituições financeiras que farão a separação dos valores do split payment. A proposta considera que os bancos precisarão adaptar suas infraestruturas para realizar o procedimento. 

Um valor de R$ 0,39 por operação a ser pago pelo governo às instituições chegou a ser discutido, mas a remuneração ainda não foi definitivamente estabelecida. O relatório do grupo de trabalho aponta que a implementação da medida depende de avaliação jurídica, orçamentária e de conveniência e oportunidade. A análise também deverá definir o instrumento necessário para formalizar a remuneração e estabelecer o escopo do pagamento.

A Controladoria-Geral da União (CGU) teria se manifestado contra o valor de R$ 0,39, ainda de acordo com a reportagem. Já a Confederação Nacional das Instituições Financeiras (CNF), que participa das discussões sobre a remuneração, afirmou que o setor negocia a questão com o governo.

O consumidor vai pagar mais caro?

Ao Comprova, Leandro dos Santos Maciel, professor de finanças na Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP), explicou que esse tipo de interpretação tem fundamentação econômica, mas não é possível generalizá-la.

Sem o split payment, a empresa recebe o valor integral e, por um momento, tem os recursos disponíveis em seu caixa durante um período. Com o mecanismo, os valores deixam de transitar pelo caixa da empresa, o que pode reduzir a disponibilidade de capital de giro em determinados momentos, disse o professor. “Nesse cenário, a empresa poderá enfrentar maiores necessidades de financiamento e, caso considere economicamente viável, repassar parte desses custos aos preços dos produtos”. 

Mas a decisão depende de outros fatores, como as condições de acesso ao crédito, o custo de financiamento, a capacidade de repasse de custos aos consumidores e a estrutura competitiva do mercado em que a empresa atua. 

“Embora exista um risco de pressão sobre os preços, a implementação do split payment, isoladamente, não implica necessariamente um aumento generalizado dos preços ao consumidor, uma vez que inúmeros outros fatores influenciam as decisões de precificação das empresas”, pontuou  Maciel.

Ele também disse que a analogia ao “pedágio” não é precisa, pois pode transmitir a ideia de que haverá uma cobrança direta das instituições financeiras sobre empresas ou consumidores. 

“A proposta prevê um custo de operacionalização do sistema de arrecadação, financiado com recursos públicos e destinado às instituições financeiras”, disse o professor.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova 

O titular do perfil no TikTok se apresenta como advogado tributarista e empresarial e diz ter excelência na redução de dívidas tributárias federais. Os outros conteúdos publicados por ele na plataforma também abordam temas como finanças e economia. Até 9 de outubro o criador do perfil já acumulava 45,7 mil seguidores no TikTok e 251 no Instagram. O Comprova entrou em contato com ele mas não obteve resposta.

Fontes que consultamos: O Comprova entrou em contato com o criador dos vídeos, leu outros textos sobre o “split payment” e conversou com Leandro dos Santos Maciel, professor de finanças na FEA-USP (Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo).

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já investigou um vídeo enganoso que sugere a cobrança de imposto de 26,5% sobre todo autônomo, também explicou o que proprietário e locatários precisam saber sobre mudanças de aluguel com a Reforma Tributária e como a modernização de cadastros da Reforma Tributária pode reajustar seu IPTU.

Eleições

Investigado por: 09/10/2026

Entrega de mídias de urnas em sala aberta segue protocolo e regras da Justiça Eleitoral

Eleições
Procedimento testemunhado por diversas pessoas em Maringá obedece às normas do TSE e garante a transparência do processo de apuração dos votos.

Não é crime o fato de a entrega das mídias com os resultados das urnas usadas nas eleições ser feita em uma sala aberta e com várias pessoas trabalhando, ao contrário do que afirma uma publicação no X. O post questiona a maneira como as informações com votos das urnas eletrônicas chegam a uma sala de contabilização para serem direcionadas para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). 

Repostando um vídeo que mostra o procedimento em Maringá (PR), um usuário do X questiona o fato de o recebimento das bolsas com as mídias que serão levadas aos computadores ocorrer em uma sala aberta e “cheia de gente”. “Achei que (…) entrava em uma sala lacrada e lá subiam os votos”, aponta, afirmando ainda ser crime. O vídeo publicado no X teve mais de 367 mil visualizações no X até esta quinta-feira (8).  

O TSE nega que a transmissão dos votos das urnas eletrônicas seja vulnerável ou irregular por ocorrer em salas abertas e com a presença de pessoas ou por utilizar “pen drives” e computadores. 

De acordo com o TSE, a transmissão dos resultados das urnas eletrônicas é um processo transparente, auditável e altamente seguro. A presença de pessoas e fiscais no local de transmissão reforça a publicidade e a transparência do ato democrático. 

O vídeo do post é real? Mostra o momento da apuração dos votos? 

O vídeo da postagem que viralizou foi repostado de um perfil de Instagram de um jornal de Santa Catarina, mas originalmente foi gravado por uma repórter de uma rede de TV do Paraná na noite da apuração em Maringá (PR). As imagens mostram o que acontece com as Mídias de Resultado das urnas, que têm formato parecido com um pen drive, depois que a votação termina. 

As imagens acompanham a chegada das bolsas a um cartório eleitoral de Maringá, a entrega das mídias e o momento em que elas são colocadas nos computadores do ponto de transmissão. Nesse local, segundo o Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR), os arquivos são enviados ao TSE por uma rede de comunicação privada e criptografada. Antes de incorporar os resultados à totalização, o sistema verifica a autenticidade, a integridade e a identificação dos arquivos.

Submetido à análise do SynthID, o vídeo é real e apresenta baixa probabilidade de alteração fraudulenta, de uso de IA ou de manipulação de conteúdo. 

“A única alteração identificável é a inclusão convencional de legenda e vinheta informativa de mídia jornalística (pós-produção editorial), sem evidências de adulteração do conteúdo dos quadros ou de geração por inteligência artificial”, aponta a ferramenta.

Como é feita a contagem? Onde? Por quem? É usado pen drive?

Segundo informações do Tribunal Superior Eleitoral,  a apuração dos votos começa imediatamente após o encerramento da votação, às 17h. Nesse momento, o presidente da seção eleitoral seleciona a opção “Encerrar votação” no terminal do mesário e confirma o procedimento seguindo as orientações do sistema. A partir desse momento, a urna é bloqueada para novos votos.

A própria urna realiza a soma de todos os votos registrados naquela seção eleitoral. Como a urna eletrônica não fica conectada à internet nem utiliza tecnologias como Wi-Fi ou Bluetooth durante a votação, os votos permanecem armazenados no equipamento até o fechamento oficial da seção.

Após o encerramento da votação, a urna imprime ao menos cinco vias do chamado Boletim de Urna (BU), documento que apresenta o resultado daquela seção específica. O boletim mostra quantos votos cada candidato recebeu, além dos votos em branco, dos nulos e do total de eleitores que compareceram para votar. Isso permite que partidos, candidatos ou qualquer cidadão possa conferir se os resultados são iguais aos contabilizados pelo TSE.

Além da versão impressa, a urna também grava eletronicamente os dados do resultado em uma mídia de armazenamento chamada Mídia de Resultado. Nessa mídia ficam registrados os dados da votação daquela seção,  protegidos por mecanismos de criptografia que permitem verificar se o conteúdo permaneceu íntegro e não sofreu alterações.

Depois da impressão dos boletins, o presidente da seção retira essa Mídia de Resultado da urna. O dispositivo é então encaminhado ao cartório eleitoral juntamente com uma das vias impressas do Boletim de Urna. No cartório, os dados são lidos por computadores preparados especificamente para o processo eleitoral e passam por novas verificações de autenticidade e integridade.

Somente após essas conferências, as Mídias de Resultado são transmitidas para os centros de recebimento da Justiça Eleitoral, onde são processadas e incorporadas aos sistemas de totalização. A transmissão ocorre por uma rede exclusiva utilizada pelos tribunais eleitorais, separada do sistema de votação. 

A contagem dos votos não é realizada manualmente por servidores públicos nem por mesários. Atualmente, a soma nacional dos votos é processada em uma infraestrutura de alta segurança mantida pelo TSE em Brasília, incluindo ambientes conhecidos como sala-cofre, projetados para proteger os equipamentos e os dados eleitorais. 

Quem criou a postagem e qual é seu interesse na disseminação do conteúdo?

A postagem original foi feita por uma repórter de uma emissora de TV do Paraná e mostra os bastidores da apuração em Maringá. Ao Comprova, ela afirmou que não teve intenção de causar desinformação com a postagem. “Na verdade, estava tudo super organizado e eu estava sob a supervisão da juíza eleitoral”, disse.

O vídeo foi republicado por um portal de Santa Catarina que, na legenda, explica como funciona o processo de apuração eleitoral. No entanto, apesar de inicialmente não aparentar ser desinformação, o conteúdo está inserido em um contexto de outras postagens, do mesmo portal, que misturam informações descontextualizadas, notícias em tom sensacionalista e publicações que favorecem a extrema direita. Há também uma postagem que questiona: “Você ainda acredita em pesquisa?”. A postagem, portanto, é voltada a gerar engajamento com dúvidas sobre a segurança da urna.

Procurado pelo Comprova, o portal de Santa Catarina disse: “Não temos que nos pronunciar sobre o que as pessoas compreendem de um conteúdo”.

Quais táticas de persuasão foram utilizadas pela publicação?

O vídeo registra um procedimento operacional padrão e legítimo do processo eleitoral brasileiro, mas ao afirmar que o trabalho da recepção das mídias com os votos das eleições em sala aberta e com muitos trabalhadores é crime, o usuário recorre a táticas de descontextualização e falsas conexões para insinuar uma fragilidade ou manipulação no sistema do TSE.

Dessa forma, o conteúdo explora, por exemplo, o aproveitamento do viés de confirmação em um ambiente já polarizado, levando o leitor a tirar conclusões precipitadas sobre o processo de contabilização dos votos nos cartórios eleitorais. 

Fontes que consultamos: O Comprova consultou a Justiça Eleitoral sobre as etapas do processo de apuração eleitoral. Também consultou a ferramenta SynthID para verificar se o conteúdo foi manipulado por IA e entrou em contato com os autores das postagens originais.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: A AFP fez uma checagem do mesmo vídeo, assim como oTribunal Superior Eleitoral. O Comprova já checou outros conteúdos desinformativos relacionados às eleições de 2026 sobre pesquisas eleitorais, alertas de segurança e um avião enviado pelos EUA para capturar Lula.

Notas da comunidade: Nenhum dos posts analisados sobre esse tema pelo Comprova tinha notas da comunidade. 

Eleições

Investigado por: 08/10/2026

Interrupção na divulgação dos resultados não afetou a totalização dos votos no primeiro turno

Eleições
O problema ocorreu na apresentação dos dados ao público, enquanto a Justiça Eleitoral continuou processando os resultados registrados nos Boletins de Urna.

Ao contrário do que sugerem publicações nas redes sociais, a interrupção de cerca de 50 minutos na atualização dos resultados para presidente não afetou a apuração nem a totalização dos votos do primeiro turno das eleições gerais de 2026. Diante de vídeos que repercutiram, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou uma nota na terça-feira (6) para esclarecer o ocorrido. 

Segundo o TSE, os Boletins de Urna (BUs) continuaram a ser transmitidos, recebidos e processados durante o período. Não há evidências de que a interrupção tenha permitido alterar os votos registrados nas urnas.

Em nota, o TSE explicou que a interrupção começou por volta das 19h14, quando 64,81% dos dados já haviam sido divulgados. Segundo o TSE, um aumento no volume de dados provocou uma “contenção no processamento”,  que resultou apenas na paralisação da aba  “Brasil” — responsável por apresentar os resultados nacionais para presidente e vice-presidente. Os resultados por estados continuaram a ser divulgados normalmente durante a interrupção. A exibição dos candidatos à presidência voltou a funcionar às 20h04, cerca de 50 minutos depois.

Com a retomada, os dados dos BUs que continuaram sendo processados durante o período passaram a aparecer na visualização nacional. Por isso, os percentuais dos candidatos mudaram em relação aos números exibidos antes da interrupção. Essa variação, por si só, não indica alteração dos votos ou manipulação do resultado.

A interrupção permitiu alterar os votos?

Não há qualquer evidência de que a interrupção de 50 minutos na exibição dos dados tenha alterado os votos registrados nas urnas. Os BUs continuaram sendo transmitidos e processados, e a totalização utiliza os resultados registrados nesses documentos. Dessa forma, a interrupção ocorreu na divulgação dos resultados pela internet, e não na apuração realizada pelas urnas eletrônicas. 

A diferença entre os percentuais apresentados antes e depois da interrupção também não indica, por si só, uma alteração nos votos. À medida que novos BUs são recebidos e incorporados à totalização, os percentuais dos candidatos podem mudar.

Como funcionam a apuração, a totalização e a divulgação?

O tribunal também explicou como funciona a contabilização e a apresentação dos resultados das eleições, que são divididos em três etapas até a divulgação do resultado: apuração, totalização e divulgação. Embora cada uma esteja relacionada, elas desempenham funções diferentes, e entender essa divisão é importante para compreender que a interrupção da atualização da página não afetou o resultado. 

  • Apuração:a urna eletrônica registra e contabiliza os votos de cada seção eleitoral ao fim da votação e emite o Boletim de Urna.
  • Totalização: a Justiça Eleitoral recebe os resultados registrados nos BUs e soma os votos de todas as seções para formar os resultados estaduais e, no caso da eleição presidencial, o resultado nacional.
  • Divulgação: os resultados apurados e totalizados são divulgados ao público pelos sistemas da Justiça Eleitoral. Foi nessa etapa que ocorreu a interrupção da atualização do resultado nacional para presidente.

Como o eleitor pode conferir os resultados de uma seção?

Embora o TSE assegure a confiabilidade do sistema eletrônico de votação, os resultados registrados em cada seção podem ser conferidos por meio do Boletim de Urna (BU), emitido pela própria urna ao término da votação. Uma via é afixada na seção eleitoral, permitindo a consulta pública, e os dados também podem ser acessados por ferramentas disponibilizadas pela Justiça Eleitoral.

Dessa forma, é possível conferir os votos registrados naquela seção e comparar os dados do BU com os resultados posteriormente divulgados pela Justiça Eleitoral.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova 

O vídeo verificado surgiu originalmente no Instagram, publicado por um perfil pessoal não verificado, dedicado à postagem recorrente de cortes e comentários políticos. A publicação alcançou seis milhões de visualizações até o dia 6 de outubro e acabou sendo replicada por outros usuários e páginas nas redes sociais. 

Na legenda, a criadora do conteúdo chama a urna de “caixinha mágica”, em tom de ironia,  sugerindo que o equipamento teria sido fraudado. A expressão também remete a uma discussão histórica sobre as formas de votação anteriores à urna eletrônica, —  no voto em papel as fraudes eram apelidadas como “mão mágica”.  

O Comprova procurou os responsáveis pelos perfis que compartilharam o conteúdo, mas não obteve retorno até a publicação desta checagem. Conforme a política editorial do projeto, que evita expor pessoas que não sejam figuras públicas quando não há retorno ao contato, os nomes dos perfis não serão divulgados.

Buscas em outras plataformas indicam que o mesmo trecho da tela estática do TSE circulou em outras redes sociais, sendo compartilhado por perfis com os mesmos interesses de questionar a integridade do processo eleitoral.

Por que as pessoas podem ter acreditado

A publicação parte de um acontecimento real e público, a indisponibilidade momentânea do painel de acompanhamento online do TSE, para alimentar suspeitas infundadas sobre a integridade do pleito. Para o eleitor comum que acompanha os números minuto a minuto, manter a mesma tela por quase uma hora transmite a impressão de interrupção da própria apuração. 

O conteúdo ganha força ao explorar o desconhecimento sobre as diferenças técnicas entre apuração, realizada na própria urna, totalização, que consiste na soma dos votos no sistema do tribunal, e divulgação, representada pela interface visual disponível no site e no aplicativo. Além disso, quando o painel voltou ao ar, a incorporação em bloco dos boletins de urna processados durante o intervalo alterou as porcentagens dos candidatos. Essa variação matemática, comum ao longo da contagem, aparece no vídeo como suposta “prova” de manipulação, em um apelo ao viés de confirmação e à desconfiança prévia em relação ao processo eleitoral.

Fontes que consultamos: Consultamos informações oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a interrupção, o funcionamento da apuração e da totalização e os mecanismos de conferência dos Boletins de Urna (BUs). Também analisamos as publicações que deram origem à alegação, no Instagram e no X.  

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema:  O Comprova já verificou outros conteúdos relacionados às eleições, como um gráfico que atribuía a um instituto de pesquisa uma previsão que, na verdade, era de um site de apostas; as regras para participação de candidatos em debates na TV; e publicações que ensinavam supostos “macetes” para votar em candidatos para induzir o eleitor a errar o número na urna. 

Golpes virtuais

Investigado por: 05/10/2026

Golpistas usam nome da WePink para simular pesquisa e extorquir clientes

Golpes virtuais
Suposta pesquisa da marca promete valores em dinheiro para quem responder formulário nas redes sociais; golpistas lucram com “taxa antifraude”.

Golpistas usam o Threads, rede social associada ao Instagram, para divulgar uma falsa campanha da WePink que promete pagamentos de mais de R$ 800 a quem responder uma pesquisa sobre a marca. Os usuários são direcionados a um site que simula a identidade visual da empresa e faz uma série de perguntas que libera um falso crédito em dinheiro. Ao final, os golpistas pedem o pagamento de R$ 19,95 sob a justificativa de uma “taxa antifraude”. Nas redes sociais, usuários relatam nunca terem recebido o valor prometido.

Apesar das queixas dos usuários, a empresa dona do Threads, a Meta — que também é dona do Facebook e WhatsApp —, afirmou ao Comprova que não permite “atividades que visam enganar, fraudar ou explorar terceiros” em suas plataformas. A Meta recomenda que os usuários “relatem qualquer conteúdo que considerem violar os padrões da comunidade do Facebook, as diretrizes do Instagram e os padrões de publicidade da Meta diretamente pelos próprios aplicativos.”

O Comprova também entrou em contato com a WePink e solicitou um posicionamento da empresa em relação ao golpe. Em resposta, a empresa informou que “o caso já foi encaminhado à equipe especializada, e que está realizando as devidas apurações e adotando as medidas cabíveis para tratar a situação.”

A WePink é uma empresa brasileira de cosméticos e cuidados pessoais fundada em 2021 por Virgínia Fonseca, Samara Pink, Thiago Stabile e Lucas Chaopeng. 

Como os golpistas abordam as pessoas: Perfis no Threads de pessoas aparentemente comuns divulgam a suposta campanha da WePink relatando ganhos de  mais de R$ 800 após responderem uma pesquisa sobre a marca. As publicações direcionam os usuários para um site que simula ser uma página oficial da empresa.

Na página, o usuário primeiro informa seu perfil no Threads e, em seguida, responde a oito perguntas sobre a WePink. A cada resposta, um saldo, inicialmente de R$ 0, vai aumentando até chegar a R$ 830.

Ao final do questionário, uma mensagem de “parabéns” informa que o usuário acumulou R$ 830. A página também exibe um cronômetro de menos de 24 horas para o suposto benefício expirar.

Depois que o usuário clica para resgatar o valor e informa uma chave Pix, é direcionado para uma página intitulada “desbloqueio de saldo”. Nela, um vídeo mostra uma mulher afirmando que “poucas pessoas” conseguem atingir aquele valor e que o dinheiro “já é seu”. 

Para receber a quantia, porém, seria necessário pagar uma suposta “taxa antifraude”, apresentada como uma forma de comprovar que o usuário é uma pessoa e não um robô tentando invadir o site.

“Fique tranquilo, o valor será totalmente reembolsado na sua conta junto com o seu saldo total”, afirma a mulher no vídeo.

A página apresenta um botão para “pagar taxa e desbloquear saldo” e gera um QR Code para o pagamento de R$ 19,95 via Pix. O site ainda alega ao usuário que eventuais alertas de segurança recebidos durante a transação se devem à grande quantidade de pagamentos que estariam sendo realizados pela suposta campanha.

“ATENÇÃO! A nova campanha WePink vem distribuindo muitos PIX diariamente, isso faz com que a transação em alguns casos ative o mecanismo de segurança, em caso de alerta fique totalmente tranquilo (a) e efetue a taxa para o recebimento ágil”.

O QR Code apresentado para a transferência da suposta “taxa antifraude” está registrado em nome da Soluções RA LTDA, CNPJ 69.156.627/0001-32.

 

 

Há relatos publicados nas redes sociais de usuários que afirmam que, depois do pagamento de uma primeira taxa, novas cobranças são apresentadas. Esses relatos, porém, não permitem afirmar por si só que essa sequência ocorre em todos os acessos ao site analisado.

A Soluções RA LTDA foi aberta no dia 16 de setembro de 2026 e tem como sócio-administrador Richard da Paz Ferreira. A empresa está localizada em uma área residencial de Taguatinga, cidade-satélite de Brasília (DF).

O Comprova tentou localizar o endereço da Soluções RA LTDA no Google Maps, mas não teve sucesso. Também não conseguimos contato por telefone.

O nome de Richard da Paz Ferreira e da Soluções RA LTDA é citado em outras publicações nas redes sociais que denunciam outros golpes, como o Golpe do Consignado, em que os golpistas se apresentam como funcionários de instituições financeiras legítimas e entram em contato com as vítimas oferecendo taxas de juros baixas e condições de pagamento favoráveis demais. Depois, os criminosos pedem que a vítima pague supostas taxas administrativas para que contratem o suposto empréstimo vantajoso, e então desaparecem com o dinheiro. 

Que táticas eles usam para chamar a atenção: Os golpistas se passam por perfis de usuários comuns do Threads para divulgar a falsa campanha. Algumas dessas publicações afirmam que os próprios usuários inicialmente desconfiaram da promoção, mas decidiram participar e receberam o valor. Também são incluídas capturas de telas com depósitos de quantias altas de dinheiro, para dar aparência de legitimidade.

Nos comentários, outros perfis são usados para induzir a vítima a acreditar no golpe, com postagens que reforçam pontos do golpe (como onde localizar o link da falsa pesquisa), mensagens de gratidão e capturas de tela dos falsos depósitos.

O Comprova identificou que esses perfis são parecidos uns com os outros: foram criados há poucos meses, se identificam como mulheres e têm histórico de respostas em outros possíveis golpes do tipo.

O site também usa outros mecanismos para chamar a atenção das vítimas e estimular o pagamento. O saldo aumenta a cada pergunta respondida, criando a expectativa de que o usuário está acumulando dinheiro. Ao final, um cronômetro estabelece um prazo para o resgate, enquanto mensagens afirmam que o valor já pertence ao participante e que a taxa de R$ 19,95 será devolvida junto com os R$ 830 prometidos.

Como se proteger: Um dos principais sinais de que a abordagem é um golpe é a promessa de dinheiro fácil ou de produtos gratuitos. É importante desconfiar sempre que houver cobrança para receber um prêmio, benefício ou valor prometido, pois empresas legítimas costumam informar promoções e campanhas em seus canais oficiais e não exigem depósitos antecipados para liberar pagamentos ou produtos aos clientes. 

Outros indícios de golpe incluem mensagens com erros de digitação, pressão para agir rapidamente e promessas muito vantajosas — como descontos exagerados. Antes de fornecer dados pessoais ou realizar qualquer pagamento, vale verificar se a ação realmente existe nos perfis oficiais da marca que estaria promovendo o prêmio, como o site, aplicativo ou redes sociais.

A quem denunciar: O Ministério da Justiça e Segurança Pública orienta que, se a vítima recebeu uma oferta falsa, clicou em um link suspeito e teve perdas financeiras, deve contatar os seus bancos imediatamente, através dos canais oficiais, e informar a suspeita de fraude. O Banco Central orienta que vítimas de golpes também registrem um Boletim de Ocorrência e guardem documentos e comprovantes relacionados ao caso. 

Deve-se registrar e preservar as provas do golpe. As provas incluem o “número utilizado, data, horário da ligação/mensagem, e o que foi dito, prints de mensagens, registros de chamadas, fotos do número utilizado, valor do prejuízo sofrido (se houver), informações referentes a transferência (para quem foi destinado os valores)”, também conforme o Ministério da Justiça. 

Se o golpe envolveu pagamento em cartão de crédito, a vítima deve contestar a transação junto à instituição financeira. Quando houver uma relação de consumo com uma empresa que possua CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica) ativo na Receita Federal, também é possível recorrer ao Consumidor.gov.br e ao Procon. 

No caso de Pix, a recomendação é comunicar o banco imediatamente e solicitar a devolução pelo Mecanismo Especial de Devolução (MED). O pedido não garante que o dinheiro será recuperado, mas quanto mais rápida for a comunicação, maiores são as possibilidades de bloqueio dos recursos.

A Meta orienta os usuários a relatarem diretamente no aplicativo qualquer conteúdo que considerem violar os padrões da comunidade do Facebook, as diretrizes do Instagram e os padrões de publicidade da Meta.

Desconfiou que é golpe? O Comprova pode ajudar a verificar. O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, eleições e possíveis golpes digitais, e abre verificações para os conteúdos duvidosos que mais viralizam. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O Comprova já identificou um golpe que usa a imagem de Luciano Hang, dono da Havan, para divulgar uma falsa plataforma de investimentos. Também chegou outra fraude que usa a imagem do presidente Lula hospitalizado para gerar cliques na plataforma de vendas Shopee.

Este texto foi produzido por jornalistas que participam do programa de Residência no Comprova e conta com o apoio do TikTok.

Eleições

Investigado por: 04/10/2026

Post inventa alerta de segurança devido a riscos de ‘acidente’ e ‘golpe’ nas eleições

Eleições
Polícia Federal nega ter emitido aviso sobre ameaça de ‘acidente e golpe’ no pleito; TSE afirma que votação transcorre com ‘normalidade’.

Não é verdade que autoridades tenham emitido um alerta aos eleitores devido a ameaças de segurança e golpe de Estado neste domingo (4), diferentemente do que alegou um post no TikTok. Ao Comprova, a Polícia Federal (PF) informou que não fez o aviso.

Sem apresentar fontes, o conteúdo viral – checado por sugestão de um leitor, que o enviou para o WhatsApp do Comprova – compartilha a orientação de que pessoas retornem a suas casas após o voto, devido ao “risco de acidentes, brigas ou golpe de Estado”. Contudo, até o momento, não foi identificado registro de problemas de segurança no pleito eleitoral.

Em coletiva de imprensa nesta tarde, ainda durante a votação, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kássio Nunes Marques, afirmou que as eleições acontecem com “normalidade”, sem o registro de ocorrência grave. Segundo o ministro, em todo o Brasil, 59 pessoas foram conduzidas pelas forças policiais por suspeita de ilícitos eleitorais.

Na entrevista, Nunes Marques descartou interferência estrangeira nas eleições. “Os nossos relatórios não apontam nenhum tipo de risco, seja ele internacional ou do crime organizado”, disse. As suspeitas sobre as ameaças cresceram após o anúncio de que as embaixadas dos Estados Unidos e da Austrália permaneceriam fechadas.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova 

O vídeo desinformativo foi publicado por um perfil no TikTok que acumula mais de 95 mil curtidas e 1.043 seguidores até 4 de outubro. O Comprova entrou em contato com o perfil, mas não obteve resposta até o momento da publicação. 

Com as publicações mais antigas datando de setembro deste ano, o perfil se descreve como uma página de notícias rápida, direta e confiável. Todos os conteúdos publicados seguem o mesmo padrão e tratam das eleições presidenciais com apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). 

Por que as pessoas podem ter acreditado

O conteúdo usa táticas de persuasão para desinformar. O Comprova identificou, entre elas, a estratégia de imitação de fontes confiáveis ao simular uma página de notícias, apesar de não ser um veículo de comunicação verdadeiro. Além disso, usa o apelo à emoção ao empregar a palavra “urgente” para dar gravidade à informação falsa e ao alegar risco à “segurança” de pessoas para causar alarde aos usuários.

Fontes que consultamos: O Comprova consultou a Polícia Federal e buscou por declarações do presidente do TSE publicadas pela imprensa.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já investigou outra alegação falsa de que a PF teria emitido alerta para golpe de Estado após os Estados Unidos terem fechado a sua embaixada no Brasil. 

Eleições

Investigado por: 04/10/2026

Avião que capturou Maduro esteve no Brasil para exercício militar e já deixou o país

Eleições
Publicação de Pablo Marçal descontextualiza presença de avião dos EUA em treinamento da FAB para sugerir intervenção eleitoral.

É falso que o avião usado pelo governo dos Estados Unidos na captura de Nicolás Maduro esteja no Brasil para levar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição. A alegação circula em um post publicado neste sábado (3). A publicação dá a entender que a aeronave seria usada para levar Lula aos Estados Unidos caso ele perca a eleição no primeiro turno e haja uma tentativa de golpe.

O empresário e influenciador Pablo Marçal publicou o conteúdo no Instagram com a legenda “Se tiver golpe, já sabe”. Mas as imagens do avião dos Estados Unidos foram tiradas de contexto. Contatada pelo Comprova por telefone, a Força Aérea Brasileira (FAB) afirmou que o avião esteve no Brasil para um exercício militar e retornou aos Estados Unidos em 24 de setembro.

Segundo o G1, o avião Lockheed Martin HC-130J Combat King II esteve na Base Aérea de Campo Grande (MS) para “simular operações de resgate e apoio em áreas de difícil acesso, em um cenário de guerra não convencional”. Ou seja, diferentemente do que o post viral – que teve mais de 12 milhões de visualizações até a publicação deste texto –, o avião não está no Brasil neste domingo (4).

O post mescla imagens da base aérea com um trecho que mostra a jornalista Clarissa Oliveira, da CNN Brasil, dando a notícia sobre a vinda da aeronave. A reportagem foi exibida em 25 de setembro.

Quem criou a postagem e qual é o seu interesse na disseminação do conteúdo?

Marçal tem mais de 13,9 milhões de seguidores no Instagram. Nestas eleições, ele está apoiando o opositor de Lula, Flávio Bolsonaro (PL). Entre os posts recentes dele há, por exemplo, uma imagem do presidente norte-americano Donald Trump com a legenda, em inglês “Trump, salve o Brasil”, e outros conteúdos ligados à direita. 

O empresário foi candidato à Prefeitura de São Paulo em 2024 e tentou buscar a Presidência agora em 2026, mas foi impedido pela Justiça Eleitoral. Ele está inelegível até 2032 por decisão do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo ligada a irregularidades em sua campanha à Prefeitura.

Quais táticas de persuasão foram utilizadas pela publicação?

Além da descontextualização – imagens de fim de setembro são usadas como se fossem atuais –, o post se vale da falsa validação de jornalistas ao publicar um trecho da apresentação de uma reportagem da CNN Brasil. Ao fazer isso, a publicação ganha uma aparência de “notícia”, omitindo assim a teoria conspiratória inventada no conteúdo (de que o avião que levou Maduro capturaria Lula). 

O post também faz uso de ironia, sarcasmo e ameaça, com a legenda “Se tiver golpe, já sabe”, incitando o medo e transmitindo uma falsa sensação de poder ou de proteção militar externa.

Fontes que consultamos: O Comprova fez uma busca reversa das imagens exibidas no vídeo, além de elencar notícias sobre o episódio envolvendo uma das aeronaves utilizada na captura do ex-ditador venezuelano Nicolás Maduro, que esteve na Base Aérea de Campo Grande (BACG), no Mato Grosso do Sul, para participar de um exercício operacional. Além disso, o Comprova analisou a reportagem que exibe imagens da jornalista Clarissa Oliveira da CNN Brasil, citada no vídeo. 

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre as publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Pablo Marçal teve outro post verificado pelo Comprova sobre as eleições publicado neste domingo. O conteúdo é sobre postagem que gera confusão sobre gráfico do mercado de apostas e pesquisa eleitoral. E o Aos Fatos verificou que vídeos não mostram movimentação militar americana em solo brasileiro para eleições.

Contextualizando

Investigado por: 04/10/2026

Gráfico que mostra 60% de chance de vitória para Flávio é de um site de apostas, não de instituto de pesquisas

Contextualizando
Plataforma de previsões não segue metodologia exigida pelo Tribunal Superior Eleitoral para medir preferência do eleitorado.

Conteúdo analisado: Post afirmando que o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) estaria com mais de 60% das intenções de voto e, Lula (PT), cerca de 30%. 

Onde foi publicado: Instagram.

Contextualizando: Flávio Bolsonaro (PL) não aparece com mais de 60% das intenções de voto em pesquisas eleitorais, ao contrário do que pode dar a entender publicação em canal oficial de Pablo Marçal. Os dados apresentados na postagem, feita neste sábado (3) no Instagram, referem-se a indicadores da plataforma de apostas Polymarket, que não utilizam a mesma metodologia ou critérios exigidos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em pesquisas eleitorais.

A Polymarket é uma plataforma de mercado de previsões baseada em criptomoedas, em que usuários podem apostar em eventos futuros, como resultado de eleições, partidas esportivas e até cenários de guerras. Uma investigação do Aos Fatos também mostrou que a própria campanha do Flávio e outros candidatos tem compartilhado as apostas da Polymarket como pesquisas oficiais. A legislação eleitoral proíbe a divulgação de dados que não sejam das pesquisas registradas.

A postagem mostra um gráfico com o título “Eleição Presidencial do Brasil” e o logo da Polymarket, em que Flávio aparece com 60% e Lula com cerca de 30%, sem indicar o que as porcentagens representam. O post ainda afirma: “Deu ruim para o PT. O STF proibiu esse site e ele nunca errou uma eleição”. Desde abril deste ano, a plataforma está proibida de ofertar e divulgar serviços no Brasil após proibição do governo federal.

Diferentemente do que aponta a plataforma de mercado de previsões, as pesquisas eleitorais mais recentes mostram os candidatos do PL e do PT empatados no primeiro turno dentro da margem de erro. O Datafolha, divulgado neste sábado (3), por exemplo, aponta Lula com 45% das intenções de voto e Flávio com 42%. Já a Quaest indica 46% para o petista e 45% para o candidato do PL. 

Para a realização de pesquisas eleitorais, o TSE estabelece uma série de informações que devem ser entregues ao órgão para a avaliação. Entre elas, estão o contratante, a metodologia, o plano amostral dos entrevistados, a margem de erro, o nível de confiança e o questionário. As probabilidades calculadas pela Polymarket não atendem nem se incluem nesse cenário. 

O Comprova já explicou como são as metodologias e processos envolvidos nas pesquisas. 

Quem fez a postagem e qual é o seu interesse na disseminação do conteúdo?

A publicação foi feita pelo perfil oficial de Pablo Marçal no Instagram. Com 13,9 milhões de seguidores, Marçal é empresário e já se candidatou à Prefeitura de São Paulo em 2024. Nas eleições deste ano, ele chegou a tentar registrar sua candidatura para a Presidência, mas ela foi rejeitada pelo TSE. 

Até 2032, Marçal está inelegível por ter sido condenado pela Justiça Eleitoral de São Paulo por ofertar gravações de vídeos para vereadores e prefeitos em troca de doações em dinheiro. Sem poder concorrer nas eleições de 2026, Marçal faz parte da equipe de campanha de Flávio Bolsonaro e tem publicado conteúdos de apoio à candidatura do PL para a Presidência. 

O Comprova entrou em contato com o Pablo Marçal pela DM do Instagram, mas não obteve retorno até o momento da publicação. 

Por que as pessoas podem ter acreditado? 

Ao não oferecer o contexto completo dos números apresentados no gráfico que trata das eleições presidenciais, a postagem induz o usuário a relacionar as porcentagens às pesquisas eleitorais. Além da descontextualização sobre a natureza dos dados, o post ainda não esclarece que a Polymarket, indicada como fonte do gráfico, é uma plataforma de apostas, e não um instituto de pesquisa. 

Outra tática de convencimento presente no material é o apelo emocional atrelado à polarização, uma vez que se utiliza de termos como “comunista” para se referir ao candidato do PT e aciona um senso de urgência com as frases “Vai ser loucura amanhã. Compartilhe, pq o povo acordou”. O viés de confirmação, tendência a aceitar melhor informações que confirmem crenças próprias, também pode ter levado apoiadores de Flávio a acreditar na postagem. 

Fontes que consultamos: O Comprova buscou informações em sites jornalísticos e os resultados das pesquisas eleitorais mais recentes. 

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Nestas eleições, o Comprova verificou que a rejeição de 68% a Lula no Paraná é real, mas não indica “derrota iminente”, diferentemente do que afirma o post. Na seção Comprova Explica, você lê detalhes sobre métodos usados em pesquisas eleitorais.

 

Eleições

Investigado por: 03/10/2026

Vídeo de policiais com denúncia infundada sobre urnas eletrônicas é de 2018

Eleições
Conteúdo sobre suposta fraude no Distrito Federal circula em períodos eleitorais desde 2018, como já verificado pelo Comprova.

Não é verdade que as urnas do Distrito Federal já tenham votos computados antes do pleito nem que seus lacres eletrônicos tenham sido violados. O vídeo com a suposta denúncia de fraude eleitoral, que já foi verificado pelo Comprova e declarado infundado pela Polícia Federal (PF), foi gravado e veiculado durante as eleições de 2018. 

| Legenda: Análise de frame do vídeo no Google Lens |

 

O conteúdo desinformativo voltou a viralizar em outras eleições, como mostrou o Estadão Verifica em 2020. O vídeo mostra dois policiais militares em frente ao prédio da Polícia Federal do Distrito Federal denunciando uma suposta fraude eleitoral depois de terem sido acionados por um representante do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). “A urna que deveria estar zerada já veio com a suspeita de ter votos impressos nela”, diz um dos indivíduos no vídeo. Outra alegação feita pelo segundo agente é de que o lacre eletrônico da urna havia sido violado. 

Em 2018, a denúncia foi investigada pela PF e pelo Ministério Público Federal e, após colhidos os depoimentos, não foi comprovada. O caso ocorreu na região do Guará, que faz parte da 9ª Zona Eleitoral. Diante da situação, o Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal (TRE-DF) apurou que houve, na verdade, um desconhecimento técnico do colaborador contratado pelo tribunal. 

TRE-DF e TSE descartaram irregularidade após apuração

De acordo com o TRE-DF, o boletim de urna e a zerésima foram emitidos sem alterações. O primeiro documento mostra, ao final do pleito, todas as informações sobre os votos dados a cada candidato, partido político, votos brancos, votos nulos, número da seção, identificação da urna e a quantidade de eleitores que votaram naquele aparelho. Já o segundo documento é assinado no início da votação pelo presidente da seção, pelos mesários e pelos fiscais dos partidos ou coligações, e mostra a identificação da máquina e a comprovação de que nela estão registrados todos os candidatos e de que não há nenhum voto computado.

Em maio de 2019, os dois policiais do vídeo, que cometeram crime de perturbação dos trabalhos no primeiro turno das eleições de 2018, aceitaram o acordo judicial proposto pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). O acordo estabeleceu o pagamento de um salário mínimo, no valor de R$ 998 (valor da época), por cada agente à Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias. 

Quem criou a postagem e qual é o seu interesse na disseminação do conteúdo?

Um dos vídeos, publicados por um perfil no X que posta conteúdos favoráveis à ideologia da direita, teve ao menos 11 mil visualizações até ser retirado do ar neste sábado (3).

Outro post verificado pelo Comprova foi publicado por um perfil iniciado em abril deste ano e que conta com mais de 10 mil seguidores.

Quais as principais táticas de persuasão na publicação?

O Comprova constatou táticas de persuasão comuns entre quem distribui conteúdos de desinformação com o intuito de descredibilizar o processo eleitoral, principalmente a transparência das urnas eletrônicas. O conteúdo verificado recorre ao apelo às autoridades – os policiais – e à distorção de fatos, explorando a falta de conhecimento técnico de dois policiais para gerar desconfiança. 

Publicada na véspera do primeiro turno, a publicação também explora  o viés de confirmação e o sentimento de pânico.

Fontes que consultamos: O Comprova realizou uma busca reversa no Google Lens e usou o SynthID para analisar a foto de um dos perfis. Também consultou publicações em sites de notícias e nas páginas do TRE-DF, do TSE, da Justiça Eleitoral e do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios.  

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Como afirmado acima, o Comprova já havia verificado o conteúdo nas eleições de 2018 e, o Estadão, na de 2020. Entre outros veículos que já haviam verificado o mesmo vídeo, estão UOL e AFP. 

Notas da comunidade: Não há notas da comunidade, mas, em um dos posts no X verificado pelo Comprova, um usuário pergunta ao Grok, inteligência artificial da plataforma, se o vídeo é verdadeiro. O Grok responde: “O vídeo é de outubro de 2018, no 1º turno das eleições daquele ano. Mostra os sargentos Ivomar Vieira Padre e Hércules Alves Viana (PMDF) relatando suposta irregularidade em urna na frente da PF em Brasília. A denúncia foi apurada pelo TRE-DF, TSE e pelo MP e considerada infundada. Eles fizeram acordo judicial em 2019”.

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Investigado por: 03/10/2026

Fechamento de consulados e embaixada dos EUA no Brasil alimenta onda de desinformação e alarme político nas redes

Eleições
Polícia Federal nega ter emitido alerta para tentativa de golpe nas eleições.

A Polícia Federal (PF) e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) não emitiram  nesta sexta-feira (2) alerta para tentativa de golpe após os Estados Unidos fecharem para atendimento ao público suas embaixadas e consulados no Brasil, ao contrário do que afirmam publicações no X, Facebook e YouTube. 

Ainda na sexta, após o alerta do Departamento de Estado norte-americano, a PF cumpriu dois mandados de busca e apreensão, em São Paulo e no entorno do Distrito Federal, para apurar “suposto planejamento de atos que poderiam colocar em risco instalações diplomáticas dos Estados Unidos no Brasil”, como afirmou o órgão em nota. Mas a PF não encontrou “elementos que corroborassem os riscos inicialmente apontados”, tampouco identificou “quaisquer suspeitos de envolvimento com organizações criminosas”. 

Ao Comprova, a Polícia Federal negou, neste sábado (3), ter produzido qualquer informe ou relatório sobre tentativa de golpe.

I Legenda: Captura de tela da resposta da PF para o Comprova I

 

Assim como a Polícia Federal, a Abin negou ter emitido alerta sobre tentativa de golpe. “Essa informação não procede” afirmou o órgão ao Comprova.

I Legenda: Captura de tela da resposta da Abin para o Comprova I

 

Os posts foram feitos a partir da publicação de um site na sexta-feira. Segundo o texto, o Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin, conjunto de entidades da administração pública federal responsável por planejar e executar atividades de inteligência, como a Abin) havia emitido informes sobre uma “Operação Psicológica” desencadeada pela gestão Donald Trump. Essa operação incluiria a suspensão do atendimento na embaixada e nos consulados dos Estados Unidos no Brasil. 

O conteúdo se espalhou rapidamente nas redes sociais. Um dos posts verificados pelo Comprova no X havia alcançado mais de 159,7 mil visualizações até 3 de outubro. No Facebook, um outro post foi visto por cerca de 430 mil pessoas até a mesma data.

Fechamento das representações consulares

O Comprova entrou em contato com o Consulado dos Estados Unidos em São Paulo, uma das representações diplomáticas do país que suspenderam os serviços e o atendimento ao público. O órgão, subordinado ao Departamento de Estado dos Estados Unidos, informou que a “administração Trump tem máxima prioridade à segurança e à proteção dos cidadãos americanos” e que está trabalhando com o serviço diplomático brasileiro para tratar de “questões de segurança”. 

“As embaixadas e consulados dos Estados Unidos no exterior utilizam regularmente o sistema de mensagens STEP, incluindo alertas, para informar os cidadãos americanos sobre ameaças, eventos e mudanças relevantes no contexto local. Estamos trabalhando em estreita cooperação com nossas contrapartes brasileiras para tratar de questões de segurança”, afirma o consulado, em nota.

I Legenda: Captura de tela da resposta do Consulado para o Comprova I

 

O que é “operação psicológica”?

Uma Operação Psicológica (mais conhecida pelo termo em inglês psyop) consiste no uso planejado de informações, propaganda e táticas de comunicação para influenciar as emoções, as atitudes e o comportamento de públicos-alvo, conforme estudo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. Historicamente consolidada no jargão militar, a prática serve para desmoralizar tropas inimigas, confundir lideranças adversárias ou conquistar o apoio de populações civis em zonas de conflito, sem focar na destruição física.

Na prática, essas operações utilizam diversos recursos, desde a divulgação de mensagens até a manipulação de fatos para gerar reações específicas, como medo, dúvida ou apatia.

Com o avanço da era digital, o conceito expandiu-se para além dos quartéis, sendo amplamente estudado na sociologia e na comunicação, como escreveu Cristiano Zanin em 2022, antes de ingressar no Supremo Tribunal Federal (STF), em coautoria com a advogada Graziela Ambrósio. 

Especialistas utilizam o termo para analisar campanhas de desinformação em massa e tentativas de polarização em redes sociais, demonstrando como a manipulação da percepção pública se tornou uma ferramenta central de influência estratégica e geopolítica no mundo contemporâneo.

Por que as pessoas podem ter acreditado

Uma das publicações virais no X emprega o apelo à urgência e o alarmismo ao utilizar termos em caixa alta e narrar uma suposta ameaça iminente de golpe internacional, o que gera forte impacto emocional e prende a atenção do leitor. 

Ao fazer isso, reduz-se a chance de ele refletir sobre o conteúdo ou de buscar outras fontes. Assim, ele acredita na desinformação e ela continua se espalhando.

O post também se aproveita da polarização, do “nós contra eles”, ao falar em tentativa de golpe pela direita e ao chamar o público a votar em Lula (PT) na eleição deste domingo (4). O Comprova alerta que a desinformação eleitoral pode influenciar o eleitor, que deve votar com base em informações íntegras.

Fontes que consultamos: Polícia Federal, Abin, Consulado dos Estados Unidos em São Paulo e reportagem sobre o fechamento de embaixadas e consulados.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Sobre eleições, o Comprova publicou recentemente que o vídeo de Xuxa criticando declaração sobre menores é de 2022 e foi direcionado a Jair Bolsonaro e que Flávio Bolsonaro não viajou aos Estados Unidos em setembro.

Notas da comunidade: Não havia notas da comunidade no X até a publicação deste texto.

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Investigado por: 02/10/2026

Entenda por que as bets foram proibidas enquanto as loterias da Caixa seguem liberadas

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Diferença na regulamentação, natureza do jogo e repasse social explicam por que as loterias federais operam sob regras próprias e sem as restrições impostas aos sites de apostas.

A principal diferença é jurídica: embora as bets e as loterias da Caixa sejam modalidades de aposta, elas seguem regras e regimes legais distintos. As bets começaram a ser legalizadas no final de 2018, quando o então presidente Michel Temer sancionou a Lei nº 13.756. Porém, a regulamentação do setor só avançou de fato em 2023, com a aprovação da Lei nº 14.790, também conhecida como a Lei das Bets. Foi essa legislação que formalizou e estabeleceu as regras para as apostas de quota fixa, que inclui tanto os jogos esportivos quanto os demais tipos de apostas.

Já as Loterias da Caixa surgiram oficialmente em 1961, quando a Caixa passou a administrar as loterias federais do Brasil. Atualmente, suas unidades lotéricas comercializam modalidades como: Mega-Sena, Loteria Federal, Dupla Sena, Quina, Lotomania, Lotofácil, Timemania, Loteca, entre outras.

Segundo Berto Igor Caballero, doutor em Direito Constitucional com ênfase em Inteligência Artificial pelo IDP-DF (Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa do Distrito Federal) e professor adjunto da Universidade Federal do Piauí (UFPI), as loterias federais administradas pela Caixa estão submetidas a uma estrutura jurídica própria.

Por que as bets foram proibidas?

Berto Igor Caballero ressalta que a medida do governo em proibir as bets deve-se ao endividamento das famílias; preocupação com o transtorno do jogo compulsivo (ludopatia), que afeta a saúde mental e o bem-estar social de milhares de apostadores; além da proteção de menores e falhas na arrecadação, pois, segundo ele, houve um avanço do consumo de jogos por crianças e adolescentes, assim como prejuízos sociais acumulados mesmo após a regulamentação inicial de 2023.

“É difícil conseguir barrar tudo isso. E como não estava havendo uma fiscalização mais rigorosa quanto às bets, elas se espalharam de uma forma viral e começaram a causar muitos danos. Então, apesar de haver receita de arrecadação para o governo federal, as bets causaram gastos demasiados com saúde pública, principalmente para pessoas diagnosticadas com dependência patológica. Isso também gerou um problema social, e essa é a principal justificativa que fez com que o governo proibisse”, disse.

O que muda com a nova medida provisória?

A Medida Provisória nº 1.394, publicada em 25 de setembro de 2026, deixou expresso que a proibição das apostas de quota fixa não se aplica às demais modalidades lotéricas autorizadas por lei. Ou seja, a medida não extinguiu as loterias tradicionais da Caixa, mas proibiu a exploração por empresas anteriormente autorizadas pelo Ministério da Fazenda, as apostas de quota fixa, modalidade de loteria em que o apostador sabe com precisão qual será o seu prêmio caso acerte o palpite no momento exato em que faz a aposta, normalmente em competições esportivas.

Outro ponto importante é que a proibição não significa que todas as bets deixarão de operar imediatamente. A MP determinou que as autorizações concedidas com base na Lei nº 14.790, de 2023, sejam extintas ao fim de um período de transição de 30 dias. Durante esse período, permanecem algumas obrigações, como impedir o cadastro de novos apostadores, para o encerramento das operações e a restituição de valores aos usuários das plataformas.

Assim, a diferença não está simplesmente em “uma aposta ser permitida e outra não”. O que mudou foi o regime jurídico das apostas de quota fixa. As loterias tradicionais continuam autorizadas porque possuem outra base legal e não estão incluídas na proibição determinada pela nova medida provisória.

Proibição de jogos privados já ocorreu outras vezes no Brasil

Não é a primeira vez que os jogos de azar explorados por entes privados são proibidos no Brasil. Historicamente, a postura das autoridades brasileiras sempre foi bastante restritiva quanto à jogatina, consolidando um modelo em que a exploração de jogos de azar é proibida como regra geral, cabendo ao Estado o controle das poucas exceções permitidas. O arcabouço jurídico dessa proibição geral teve como marco principal a Lei de Contravenções Penais de 1941, editada durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, que criminalizou formalmente tais práticas no país.

Antes e depois dessa legislação, diferentes modalidades privadas sofreram restrições e banimentos diretos. O jogo do bicho, criado em 1892 como iniciativa do empresário João Batista Viana Drummond para o zoológico do Rio de Janeiro, começou a ser punido pelo poder público em 1899, antes de ser enquadrado na clandestinidade em 1941.

Já os cassinos físicos operados pela iniciativa privada, que haviam sido mantidos como exceção durante a era Vargas, foram expressamente proibidos em 1946 pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, que anulou suas licenças de funcionamento. A partir de então, estabeleceu-se o monopólio estatal sobre as loterias como serviço exclusivo do setor público.

Após terem sido liberados na década de 1990 como uma exceção voltada ao financiamento do esporte (por meio das leis Zico e Pelé), esses estabelecimentos privados voltaram a ser proibidos em 20 de fevereiro de 2004. Na ocasião, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou uma Medida Provisória banindo o funcionamento de bingos e caça-níqueis em todo o território nacional após o escândalo de corrupção envolvendo Waldomiro Diniz e o bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Dinheiro das apostas é transformado em recursos sociais

As duas modalidades têm repasses obrigatórios para áreas sociais, mas em proporções diferentes. Nas Loterias da Caixa, cerca de 48% da arrecadação é destinada por lei a setores como seguridade social, segurança pública, esporte, cultura, educação e saúde. As bets previam uma destinação social com percentual menor: 12% da arrecadação líquida, após o pagamento de prêmios e do Imposto de Renda. Os recursos são destinados a áreas como esporte, turismo, educação e saúde.

Além dos repasses, a legislação das bets prevê medidas de proteção aos apostadores, como restrições à publicidade, mecanismos para impedir o acesso de pessoas proibidas de apostar e ações de prevenção e tratamento da dependência em jogos.

Em 2025, a arrecadação legal das loterias da Caixa garantiu R$ 12,2 bilhões em repasses sociais para o financiamento de políticas públicas, com destinações prioritárias para a Seguridade Social (R$ 4,46 bilhões), Segurança Pública (R$ 2,54 bilhões) e Esporte (R$ 1,92 bilhão), além de aportes na Cultura (R$ 745 milhões), Educação via Fies (R$ 474 milhões) e outras áreas essenciais (R$ 2,06 bilhões) — ritmo que se mantém acelerado em 2026, somando mais de R$ 6,92 bilhões até agosto.

Fontes consultadas: O Comprova consultou a Medida Provisória nº 1.394/2026, as Leis nº 13.756/2018 e a nº 14.790/2023. Para entender a regulamentação e os repasses das loterias federais, foram consultadas as informações oficiais da CAIXA. A investigação também ouviu o doutor em Direito Constitucional Berto Igor Caballero, que explicou as diferenças jurídicas entre as bets e as loterias federais e as justificativas relacionadas à decisão do governo.

Por que o Comprova contextualizou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta nesse monitoramento um tema que está sendo descontextualizado, o Comprova coloca o assunto em contexto. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O Comprova já investigou por que as apostas digitais não garantem retorno financeiro. Também verificou que é falso que o número de apostas na Mega-Sena tenha caído após o crescimento das bets. O UOL e Terra publicaram investigações sobre o assunto.