O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa, apartidária e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação para zelar pela integridade da informação que molda o debate público. O objetivo é oferecer à audiência uma compreensão clara e confiável dos acontecimentos e contribuir para a integridade do ambiente digital e para uma sociedade mais bem informada e resiliente à desinformação e a golpes e fraudes virtuais.
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Investigado por: 18/08/2026

Saída temporária x prisão domiciliar: entenda os casos de Bolsonaro, Nardoni e Suzane

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Postagem feita por Eduardo Bolsonaro compara os casos de Jair Bolsonaro, Alexandre Nardoni e Suzane von Richthofen, mas ignora diferenças entre regimes de cumprimento de pena e regras aplicadas em cada situação

Conteúdo analisado: Postagem feita pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) na qual  ele escreve “O Brasil está doente”, sobre uma montagem que reúne três manchetes: “Moraes nega pedido para filhos visitarem Bolsonaro no Dia dos Pais”, “Condenado pela morte da filha, Nardoni sai de presídio para o Dia dos Pais” e “Suzane von Richthofen deixa a prisão para saída temporária do Dia dos Pais”.

Onde foi publicado: X.

Contextualizando: Eduardo Bolsonaro compartilhou uma postagem comparando de forma incorreta o caso de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, com os casos de Alexandre Nardoni e Suzane von Richthofen, em relação à saída temporária concedida a presos no Dia dos Pais. Como o Comprova contextualiza, os três cumprem regimes diferentes em suas sentenças, os casos possuem questões jurídicas distintas e não estão relacionados entre si. 

As saídas de Dia dos Pais de Nardoni e Richthofen não se aplicam ao mesmo contexto de Jair Bolsonaro, já que o pedido do ex-presidente não era de saída, mas de receber a visita de seus filhos. E o principal ponto, que Eduardo omite em seu post, é que Bolsonaro teve o pedido para receber seus filhos na prisão domiciliar negado porque descumpriu medidas cautelares impostas pela Justiça  – após a violação, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes suspendeu as visitas dos filhos pelo prazo de 30 dias a partir de 13 de julho. No caso do senador Flávio Bolsonaro, o prazo foi maior (90 dias), em razão da divulgação de uma carta em suas redes sociais.

Os três casos têm ligação?

Não. Segundo Andrei Zenker Schmidt, doutor em ciências penais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), “não é correto comparar o pedido de Jair Bolsonaro pela visita de seus filhos com as saídas temporárias de Alexandre Nardoni e Suzane von Richthofen”. 

Embora os episódios envolvam pessoas condenadas pela Justiça e ocorram em torno do Dia dos Pais, as situações são juridicamente diferentes. Bolsonaro “está cumprindo pena de mais de 27 anos em regime fechado” e “obteve prisão humanitária em razão de sua saúde, o que é uma exceção”, segundo Zenker. Já “Nardoni e Suzane obtiveram saídas temporárias porque estavam em regime semiaberto”.

A comparação faz sentido apenas entre os casos de Alexandre Nardoni, em 2019, e Suzane von Richthofen, em 2016. Ambos deixaram o presídio por saída temporária, benefício que a Lei de Execução Penal reserva aos “condenados que cumprem pena em regime semiaberto” (art. 122). Os dois estavam nesse regime, a execução de ambos corre em Taubaté e a lei valia igual nas duas datas.

O caso de Jair Bolsonaro se afasta dos outros dois. O pedido, no caso do ex-presidente, não era de saída, e sim de visita (art. 41, X): visita é alguém entrando, saída temporária é o preso saindo. Ele também não está no regime que admite o benefício: a decisão do STF de julho de 2026 registra que ele ficou “em regime fechado até 24/3/2026” e cumpre “desde 27/3/2026, sua pena privativa de liberdade em casa”. E a execução dele corre no próprio Supremo, que o condenou, e não na Justiça estadual.

Entendendo caso a caso

Jair Bolsonaro: O ex-presidente foi condenado em setembro de 2025 pelo STF a 27 anos e três meses de prisão por seus crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado. Ele passou a cumprir a pena após o julgamento e, em janeiro de 2026, foi transferido para prisão domiciliar, sob condições determinadas por Moraes.
Em 2026, a defesa de Bolsonaro pediu a Moraes autorização para que os filhos o visitassem no Dia dos Pais. Não se tratava de uma saída temporária, já que Bolsonaro não sairia de uma penitenciária para passar o dia com a família. O pedido era para receber visitantes na residência onde cumpre prisão domiciliar. A autorização foi analisada dentro das regras específicas impostas pelo STF para as visitas ao ex-presidente.
Vale mencionar que os filhos e a filha de Bolsonaro podiam visitá-lo aos sábados e quartas-feiras, quando Moraes determinou as regras da prisão domiciliar em 28 de março de 2026. Ainda antes disso, os quatro filhos de Bolsonaro, além da esposa Michelle, já podiam visitá-lo na Papudinha pois têm “autorização permanente” sem necessidade de nova autorização judicial a cada visita.
Em 13 de julho, Flávio Bolsonaro teve suas visitas suspensas por 90 dias, devido a divulgação de uma carta escrita por Jair Bolsonaro nas redes sociais, o que descumpriu as medidas cautelares impostas a Jair. Já em 17 de julho, Moraes determinou a suspensão do direito de visita de Bolsonaro por 30 dias, mantendo apenas visitas médicas, fisioterapêuticas e de advogados. A decisão também proibiu visitas com finalidade político-eleitoral até o fim das eleições de 2026. 

Alexandre Nardoni: Ele foi condenado em 2010 pela morte da filha, Isabella Nardoni, a 31 anos, um mês e dez dias de prisão por homicídio triplamente qualificado. A pena foi reduzida para 30 anos, dois meses e 20 dias, inicialmente determinada para cumprimento em regime fechado.
Ao longo dos anos, Alexandre passou a pleitear a progressão para o regime semiaberto. Em abril de 2019, a Justiça de São Paulo concedeu a progressão, mas o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) posteriormente cassou a decisão e determinou a realização do teste de Rorschach para avaliar sua adaptação ao regime menos rigoroso.
Foi nesse contexto que ocorreu a saída temporária do Dia dos Pais de 2019. Naquele momento, Nardoni estava no regime semiaberto e a legislação permitia que presos nessa situação obtivessem autorização para deixar temporariamente a prisão, inclusive para visitar familiares.
A saída de Nardoni no Dia dos Pais não foi uma autorização excepcional concedida em razão da data ou da sua condição de pai. Era um benefício previsto na legislação vigente naquele momento, concedido dentro das regras da execução penal.

Suzane von Richthofen: Ela foi condenada em 2006 a 39 anos de prisão pela participação no assassinato dos pais, Manfred e Marísia von Richthofen, crime que ocorreu em 2002. Durante os primeiros anos da execução da pena, Suzane permaneceu em regime fechado.
Em outubro de 2015, Suzane obteve novamente o direito à progressão para o regime semiaberto. A decisão foi tomada pela 5ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo, que aceitou por unanimidade o recurso da defesa. Suzane já havia recebido a progressão anteriormente, em 2014, mas abriu mão do benefício por temer por sua segurança fora do regime fechado.
Foi depois dessa mudança de regime que Suzane passou a poder solicitar saídas temporárias. Em março de 2016, por exemplo, a Justiça autorizou sua primeira saída temporária, durante a Páscoa.  Em agosto de 2016, Suzane deixou a Penitenciária Feminina de Tremembé para passar o Dia dos Pais fora da prisão. Era a terceira saída temporária concedida a ela.

E o que mudou na lei?

Além da diferença entre os regimes caso a caso, a legislação sobre saída temporária mudou desde os episódios envolvendo Nardoni e Suzane. A Lei nº 14.843, de 2024, alterou a Lei de Execução Penal e vetou o benefício  para condenados por crimes hediondos ou praticados com violência ou grave ameaça.

Que táticas de persuasão foram utilizadas pela publicação de Eduardo Bolsonaro? 

A publicação feita pelo ex-deputado utiliza diferentes táticas de persuasão. A principal delas é a descontextualização, embora reúna manchetes verdadeiras, omite o contexto de cada decisão judicial, que ocorreu em momentos processuais distintos e com fundamentos jurídicos diferentes. Ao apresentar os casos lado a lado, cria uma conexão inexistente entre eles, o que pode induzir o leitor a interpretar que as decisões foram tomadas sob as mesmas circunstâncias e regras.

A comparação também recorre à falsa equivalência, ao colocar como equivalentes situações jurídicas distintas. Enquanto Nardoni e Suzane cumpriam pena em regime semiaberto e tiveram acesso à saída temporária prevista na legislação vigente à época, Jair Bolsonaro estava submetido às regras da prisão domiciliar, e o pedido analisado tratava apenas da flexibilização das restrições de visitas.

Outro recurso identificado é o cherry-picking (uso seletivo). A publicação reúne apenas três manchetes que sustentam a narrativa de um suposto tratamento desigual, sem apresentar informações sobre o contexto de cada decisão, os diferentes regimes de cumprimento de pena e as normas aplicáveis em cada caso.

Além disso, a escolha dos casos de Nardoni e Suzane von Richthofen reforça o apelo à emoção e ao sensacionalismo. Ambos envolvem crimes de grande repercussão e forte impacto emocional, o assassinato de uma criança cometido pelo próprio pai e o planejamento do assassinato dos pais pela própria filha. Ao associar esses episódios ao caso de Bolsonaro, a publicação tende a despertar uma reação. 

Fontes consultadas: Foram consultadas as decisões judiciais do STF em relação ao caso do ex-presidente Jair Bolsonaro, do TJ-SP sobre o caso de Nardoni e Von Richthofen e demais matérias de diferentes veículos jornalísticos do Brasil que cobriram os assuntos. Também foi ouvido o doutor em ciências penais pela PUCRS Andrei Zenker. O Comprova tentou contato com a assessoria do Eduardo Bolsonaro, mas até a publicação desse Contextualizando, não obtivemos retorno. 

Por que o Comprova contextualizou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta nesse monitoramento um tema que está sendo descontextualizado, o Comprova coloca o assunto em contexto. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O Comprova já publicou um texto sobre as mudanças na legislação para a saída temporária de presos e a AFP Checamos verificou publicações que confundem “saidinhas”, autorizadas pelo Judiciário, com indulto presidencial.

Comprova Explica

Investigado por: 18/08/2026

Desinformação sobre a origem da covid-19 volta a circular após audiência de Anthony Fauci nos EUA

Comprova Explica
Perfis publicaram vídeos questionando a eficácia das vacinas, o uso de máscaras e o que se sabe sobre a origem do vírus

Conteúdo analisado: O Comprova analisou vídeos que afirmam que o imunologista estadunidense Anthony Fauci, ex-conselheiro médico do governo Biden durante a pandemia, confessou, em registros feitos em seu diário pessoal, que o vírus Sars-Cov-2, causador da covid-19, teve origem num vazamento de laboratório. As publicações afirmam ainda que Fauci defendia o uso de hidroxicloroquina no tratamento da doença e que ele teria mentido sobre a eficácia de máscaras, do distanciamento social e das vacinas.

Comprova Explica: Informações distorcidas e falsas sobre a pandemia continuam a circular nas redes sociais. Quando divulgados e credibilizados, esses conteúdos questionam métodos comprovados cientificamente, como a vacinação, e colocam em risco a saúde de indivíduos.  

A seção Comprova Explica mostra por que conteúdos já desmentidos relacionados à covid-19 voltaram a circular, lista os discursos atuais que já foram desmentidos pelo Comprova e o que a ciência diz sobre a eficácia das vacinas e de medicamentos como a ivermectina.

Por que conteúdos já desmentidos voltaram a circular com força nos últimos dias?

O imunologista Anthony Fauci tornou-se o principal rosto do combate à pandemia nos Estados Unidos. Ele foi questionado sobre a origem da covid-19 em uma audiência em 29 de julho no Congresso americano. Rand Paul, senador republicano que convocou a audiência, acusou Fauci de tentar ocultar detalhes sobre o surgimento do coronavírus durante a sessão. Senadores buscaram responsabilizá-lo pelo fechamento de escolas, pelo uso obrigatório de máscaras e pela obrigatoriedade da vacinação, por exemplo.

O Congresso americano é controlado pelo Partido Republicano, o mesmo do presidente Donald Trump, que alimentou teorias da conspiração sobre o coronavírus.

No Brasil, postagens desinformativas sobre Fauci e a pandemia foram divulgadas por políticos alinhados ideologicamente a Trump, como Nikolas Ferreira e Mario Frias, ambos do PL. O Comprova tentou contato com os dois deputados, mas não houve resposta até a publicação deste texto, que segue aberto caso haja manifestação.

A cientista política Carolina Botelho, doutora em Ciência Política e pesquisadora do INCT/SANI/CNPq, disse à BBC Brasil que “[a circulação de desinformação] é a velha estratégia da extrema-direita para lidar com temas controversos e mobilizar sua base”, e que “o que eles precisam é do efeito do viés de confirmação”. 

Na mesma reportagem, Deisy Ventura, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), afirmou: “Não se trata apenas desse vídeo [de Nikolas Ferreira], mas de um ecossistema de desinformação sobre saúde pública”.

O fato de Fauci ter recorrido à Quinta Emenda significa que ele é culpado de algo?

Não. A Quinta Emenda da Constituição dos Estados Unidos garante a qualquer pessoa o direito de não responder a perguntas que possam incriminá-la — o equivalente ao direito de permanecer calado previsto na Constituição brasileira. A Suprema Corte americana já decidiu que desse silêncio não se pode concluir culpa.

Ao não responder às questões, Fauci foi acusado de desacato. O desacato, entretanto, mesmo se confirmado, não torna verdade aquilo que foi perguntado. No Brasil, o Código de Processo Penal diz que o silêncio “não poderá ser interpretado em prejuízo da defesa”, e o STF já decidiu que a garantia vale inclusive para quem depõe em Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). 

Outros conteúdos já foram desmentidos pelo Comprova

Fauci tornou-se  alvo de uma rede de desinformação que distorceu suas ações, e-mails oficiais e declarações públicas para sustentar teorias conspiratórias. Algumas publicações envolvendo o ex-conselheiro médico já foram investigadas anteriormente.

Em 2024, o Comprova classificou como enganosa uma publicação no X que alegava que o infectologista teria confessado participação na criação da covid-19 e deletado documentos que revelavam a origem do coronavírus. No entanto, estudos científicos definitivos comprovaram que o vírus tem origem natural e não foi manipulado propositalmente.

Outra desinformação envolveu mensagens do início de 2020 nas quais o infectologista desaconselhava o uso de máscaras para pessoas saudáveis. Naquele momento inicial, as principais agências de saúde do mundo ainda não sabiam sobre a alta transmissão do vírus por pessoas sem sintomas e temiam o desabastecimento de máscaras para médicos na linha de frente; a recomendação foi atualizada assim que novos estudos comprovaram a eficácia do acessório. 

Campanhas de desinformação também tentaram descredibilizar as vacinas alegando que as autoridades de saúde teriam admitido que os imunizantes não funcionavam quando voltaram a recomendar o uso de máscaras em locais fechados. Na realidade, as vacinas sempre se mostraram eficazes em evitar casos graves e mortes, mas a máscara voltou a ser sugerida de forma preventiva porque novas variantes altamente contagiosas reinfectavam mesmo pessoas já vacinadas. 

Nos últimos anos, algo mudou em relação às vacinas ou à ivermectina? 

A associação da ivermectina ao tratamento da covid-19 ganhou força após um estudo australiano publicado em 2020 indicar redução da presença do vírus em testes realizados em laboratório. Segundo estudo do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), porém, os resultados foram obtidos em células de rins de macacos e com doses cerca de dez vezes superiores às aprovadas para uso em humanos pela Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos. Além disso, os resultados não foram reproduzidos em estudos clínicos, ou seja, em humanos.

Outras pesquisas também não comprovaram a eficácia do medicamento contra a covid-19. Por isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a ivermectina do estudo internacional Solidarity Trial e concluiu que as evidências disponíveis eram insuficientes para recomendar o uso.

Alessandro Pasqualotto, coordenador científico da Sociedade Brasileira de Infectologistas (SBI), afirma que “durante a pandemia, vários medicamentos, como cloroquina, ivermectina, azitromicina e nitazoxanida, foram testados contra a covid-19, mas nenhum deles demonstrou benefício comprovado na prevenção ou no tratamento da doença”. 

Segundo ele, como muitos foram usados em casos leves ou assintomáticos, que provavelmente melhorariam mesmo sem tratamento, criou-se a impressão de que esses medicamentos haviam funcionado. “No entanto, quando avaliados em estudos clínicos controlados, essa eficácia não foi confirmada.” No caso da ivermectina, o infectologista afirma que o medicamento “não demonstrou benefícios confiáveis contra a covid-19 nos estudos científicos de melhor qualidade”.

Em relação às vacinas, Pasqualotto destaca que elas “demonstraram de forma consistente reduzir o risco de doença grave, hospitalização e morte”. A proteção contra a infecção e os sintomas, porém, “pode diminuir com o tempo e com o surgimento de novas variantes”, já que a imunidade enfraquece gradualmente e o vírus continua sofrendo mudanças.

O infectologista ressalta que a ciência mostra que as vacinas contra a covid-19 continuam sendo importantes. As doses de reforço e as vacinas atualizadas ajudam a renovar essa proteção, especialmente entre as pessoas com mais risco de complicações.

A longo prazo, as vacinas causam mal? 

Segundo Alessandro Pasqualotto, não há motivo para a população temer efeitos prejudiciais tardios da vacinação contra a covid-19. “Depois de vários anos de acompanhamento, não foi identificado nenhum sinal de que essas vacinas provocam câncer, alterações genéticas ou outras doenças tardias”.

Ainda conforme o coordenador científico, as vacinas podem causar “efeitos adversos” como qualquer outro medicamento, mas grande parte desses efeitos são leves e passageiros. “Reações graves, como inflamação do coração em alguns adolescentes e adultos jovens, são raras e geralmente surgem nos primeiros dias após a aplicação”, diz. “Assim, para as pessoas às quais a vacinação é recomendada, seus benefícios continuam superando os riscos conhecidos.”

Registros de problemas de saúde em diários de Fauci estabelecem relação de causalidade direta com a vacina?

Os registros do diário atribuídos a Fauci não estabelecem uma relação de causalidade entre seus problemas de saúde e as vacinas. 

O documento abrange o período de dezembro de 2019 a maio de 2020, meses antes de qualquer vacina contra a covid-19 ser aprovada e disponibilizada para o público. Não há qualquer menção no arquivo de que ele tenha recebido, antecipadamente, uma dose do imunizante.

Fauci recebeu sua primeira dose da vacina, da Moderna, em um evento transmitido ao vivo pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA em 22 de dezembro de 2020, e recebeu a segunda dose em 21 de janeiro de 2021. 

A NewsGuard checou e publicou em 31 de julho de 2026 que o infarto pulmonar de Fauci registrado no diário foi falsamente associado à vacina. Outros problemas de saúde relatados por ele foram diagnosticados e tratados antes da vacina. 

Por que as pessoas podem ter acreditado nos posts?

As publicações analisadas utilizam táticas comuns em casos de desinformação, como o apelo à emoção no caso do vídeo do deputado federal Nikolas Ferreira, que usa vídeos de comerciantes sendo multados e chorando.

Há também casos de descontextualização e de falsa equivalência, como no contraste entre declarações de Fauci em 2021, quando afirmou que testemunharia “sem problemas”, e a sua decisão recente de recorrer ao direito ao silêncio. Os vídeos ignoram uma mudança de contexto jurídico e o direito constitucional de não se autoincriminar para sugerir implicitamente que Fauci é culpado. 

Fontes consultadas: A equipe analisou estudos e relatórios sobre a covid-19, buscou informações em outras verificações publicadas pelo Comprova e agências de checagem e analisou o conteúdo dos diários de Fauci. A checagem também ouviu Alessandro Pasqualotto, da SBI.

Por que o Comprova explicou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta nesse monitoramento um tema que está gerando muitas dúvidas e desinformação, o Comprova Explica. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O Comprova já verificou conteúdos que acusam Anthony Fauci de ser um dos criadores da covid-19, de não acreditar na eficácia das vacinas contra o vírus e de ter e-mails que revelam que o coronavírus foi criado em laboratório. Investigações recentes da Agência Lupa, do Estadão Verifica e do UOL Confere também analisaram publicações consideradas enganosas sobre a audiência no Senado da qual Fauci participou. 

Comprova Explica

Investigado por: 14/08/2026

Entenda a segurança das urnas e por que o TSE abriu um aparelho ao vivo

Comprova Explica
Onda de desinformação voltou a circular com força com posts virais descredibilizando erroneamente o sistema eletrônico após órgão fazer demonstração em rede nacional

Conteúdo analisado: Postagens de usuários, incluindo de programadores, nas plataformas X e TikTok, questionam a desmontagem de uma urna ao vivo, em rede nacional, feita pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 3 de agosto. Esses perfis afirmam que abrir uma urna e mostrar os itens essenciais para a segurança da urna e do pleito, como a placa-mãe, as mídias onde são carregados os programas oficiais de votação e o componente onde os votos são gravados de forma criptografada não provam a segurança e a inviolabilidade das urnas.

Comprova Explica: Em ano eleitoral, desinformações e teorias conspiratórias que questionam a segurança das urnas eletrônicas voltam a circular com mais frequência, principalmente nas redes sociais.

Em uma transmissão inédita, o TSE abriu uma urna eletrônica em rede nacional ao vivo, em 3 de agosto, dando início à 1ª Semana Nacional do Sistema Eletrônico de Votação. O evento foi transmitido em conjunto por TVs públicas e nos canais no YouTube dos tribunais regionais eleitorais (TREs) de todas as regiões do país. Também houve transmissão em TVs por assinatura em parceria com as instituições.

O ato destinado a dar mais transparência e a mostrar os mecanismos de segurança da urna, no entanto, gerou grande repercussão nas redes sociais, e acabou sendo alvo de desinformação que questiona a segurança das urnas e a validade da ação para comprovar sua confiabilidade. Diante disso, a seção Comprova Explica apresenta detalhes da demonstração e mostra os mecanismos de segurança eleitoral em vigor.

Por que o TSE desmontou uma urna eletrônica?

A iniciativa visou alcançar o maior número de pessoas, permitindo que compreendessem de forma didática os componentes do equipamento e o seu funcionamento. Na ocasião, o coordenador de Tecnologia Eleitoral da Corte, Rafael Azevedo, exibiu os componentes essenciais para a segurança da urna e do pleito, como a placa-mãe, as mídias em que são carregados os programas de votação e o módulo em que os votos são gravados de forma criptografada. No total, 563 mil urnas serão utilizadas nas eleições de 2026.

A desmontagem, contudo, não foi uma auditoria nem um teste, como têm sugerido alguns conteúdos virais. “O objetivo é fornecer informação de qualidade para evitar desinformação. Não é um teste nem auditoria, embora sirva para comunicar melhor os elementos de modo a promover a auditoria por parte das entidades fiscalizadoras”, disse o TSE, em nota. Auditorias existem, mas ocorrem em outros momentos. Entre eles estão o Teste Público de Segurança (TPS), realizado no ano anterior ao pleito, e o Teste de Integridade, realizado no dia da votação.

Abrir a urna é útil para demonstrar uma fraude?

Um dos vídeos investigados diz que uma fraude não apareceria onde as câmeras estavam apontando durante a abertura da urna. Outros posts virais ironizam a desmontagem dizendo que abrir uma única urna não prova nada, já que há milhares de outros equipamentos e o problema está em quem conta os votos. Há publicações alegando que, se as urnas são invioláveis, elas não deveriam ser abertas. De acordo com o professor Marcos Simplício, coordenador da Comissão Especial de Cibersegurança da Sociedade Brasileira de Computação (SBC) e do projeto de colaboração entre USP e TSE para evolução do sistema de votação, esta não é a primeira vez que o TSE abre uma urna, embora esta tenha sido a primeira transmissão em rede nacional. O objetivo, segundo ele, não é provar que não há fraude, mas a demonstração poderia ser útil para demonstrar a presença de um objeto estranho no equipamento, por exemplo

“Se tem um hardware ali desviando votos entre o teclado e a placa-mãe, abrir a urna ajuda a identificar esse objeto”, diz. Mas Simplício deixa claro que esse tipo de ataque não seria efetivo porque a comunicação entre o teclado e a placa-mãe é protegida por criptografia justamente para prevenir um hardware fraudador. Simplício também explica que não há previsão para abertura de urnas pós-eleição que verifique esse tipo de suspeita, mas isso poderia ser feito caso uma auditoria fosse solicitada.

Para o tribunal, “a urna foi feita para ser segura mesmo se aberta, tanto por suas próprias barreiras de segurança quanto pelas diversas informações geradas no processo que permitem a plena auditoria”. Por conta dessas barreiras, para o órgão, “fraudar uma eleição eletrônica é inviável”. Além disso, as urnas funcionam de forma isolada e não são conectadas a nenhum dispositivo com acesso à internet.

Como são os testes de segurança e como eles ajudam a evitar uma fraude?

As principais formas de verificar a segurança da urna são o Teste Público de Segurança e o Teste de Integridade. O teste de segurança, ou Teste Público da Urna, ocorre no ano anterior à eleição e serve para que especialistas identifiquem falhas ou vulnerabilidades a serem corrigidas. A última fase é o teste de confirmação, para verificar se os problemas encontrados foram corrigidos.

Já o Teste de Integridade ocorre nos TREs no dia da eleição, e é acompanhado por empresa de auditoria externa. Segundo o TSE, o processo tem por objetivo verificar se o voto depositado é o mesmo que será contabilizado pelo equipamento.

O teste simula uma votação normal e considera as circunstâncias que podem ocorrer durante o pleito. Sendo assim, segue o mesmo rito de uma seção eleitoral comum, como emissão da zerésima (documento que comprova não haver nenhum voto na urna antes da votação) e impressão do Boletim de Urna (BU), relatório impresso que contém a apuração dos votos armazenados no equipamento.

“No geral, a auditoria mais possível para ver que não tem nada espúrio é o Teste de Integridade. Não é perfeito, não existe nenhum mecanismo perfeito de segurança, mas ele traz algum grau de confiança de que a urna está se comportando do jeito esperado”, afirma Marcos Simplício. Além disso, a urna faz um autoteste de inicialização e se algo não estiver de acordo com o esperado, ela trava.

É verdade que os votos não são rastreáveis?

Em outro trecho de um vídeo viral, o autor critica uma suposta falta de rastreabilidade da urna e diz que um Pix deixa mais rastros verificáveis do que o voto, o que não é verdade. Em nota, o TSE disse que as duas situações sequer podem ser comparadas: “O voto é secreto no Brasil para proteger a vontade do eleitor contra ameaças e compra de votos. Após registrado o voto, não deve ser possível saber quem votou em quem. O Pix, em contrapartida, tem por definição ser rastreável, pois é uma atividade bancária em que o requisito é esse”.

Simplício explica que o principal ponto de rastreabilidade do Pix é o log, que registra por onde o dinheiro passou, e isso a urna também faz, mas sem ligar o eleitor ao voto.

“Cada ação relevante é guardada no log da urna e você consegue ver quantas pessoas votaram, se o voto foi autenticado, se ele foi liberado pelo mesário”, diz.

Esses logs da urna, que registram todas as atividades, o funcionamento e possíveis falhas no equipamento, também podem ser baixados por qualquer cidadão no portal de Dados Abertos do TSE. Além disso, o resultado pode ser checado pelos boletins de urna, que também ficam disponíveis para download e são obrigatoriamente impressos e fixados nas portas de cada seção eleitoral após o final da votação.

Apenas o TSE organiza, questiona e julga o que acontece na eleição?

Não. O TSE é a instituição que organiza as eleições, mas não é o único a fazer questionamentos sobre o processo. Toda a eleição é fiscalizada e auditada por uma série de instituições, como entidades de classe, órgãos públicos, partidos políticos, especialistas e universidades, antes, durante e depois do pleito. Desde 2002, o código-fonte das urnas é aberto para que essas entidades possam inspecioná-lo, fazer sugestões, indicar se o software faz o que manda a lei, se ele funciona corretamente e se é seguro.

A Lei das Eleições brasileira permite que todos os partidos e coligações constituam um sistema próprio de totalização dos votos, contratando empresas de auditoria, que terão acesso aos mesmos programas e dados usados pela Justiça Eleitoral.

Além disso, os próprios eleitores podem acompanhar a apuração em tempo real e baixar os boletins de cada uma das urnas usadas na eleição. Edson Araújo, advogado especialista em Direito Eleitoral, mestre em Ciência Política pela UFPI e membro Fundador da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (ABRADEP), afirma que qualquer cidadão que se deparar com alguma irregularidade pode fazer uma denúncia ao Ministério Público Eleitoral.

O especialista esclarece que cabe à Justiça Eleitoral organizar e julgar o que acontece nas eleições. E explica que o processo eleitoral é estruturado em três níveis: no âmbito nacional, o TSE atua como órgão máximo e uniformiza as regras por meio de resoluções e julga eleições presidenciais e recursos; no campo estadual, os TREs administram os pleitos e julgam causas relativas aos cargos de governador, senador e deputados federais e estaduais; e, na competência municipal, os juízes eleitorais atuam na base das zonas eleitorais, organizando o pleito e julgando as demandas de prefeitos, vice-prefeitos e vereadores.

Por que posts sobre as urnas voltaram a circular?

Em ano eleitoral, narrativas desinformativas e teorias conspiratórias sobre a transparência do pleito viralizam e se espalham de forma descontrolada.

Apesar da “onda desinformativa” na internet, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) reforça constantemente por meio de notas, ações e matérias, que as urnas são auditáveis e invioláveis.

“[Essa onda de desinformação] Continua porque os atores que a propagam sabem como isso é eficaz em influenciar o debate público e tentam tirar vantagem na implantação da dúvida generalizada sobre o processo eleitoral”, argumenta o pesquisador Matheus Soares, mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), coordenador de conteúdo do Aláfia Lab, do site *desinformante e do Observatório IA nas Eleições.

Fontes consultadas: Consultamos o site do TSE; a lista de entidades fiscalizadas; a Lei das Eleições, além de dados do Netlab UFRJ. Foram ouvidos: Marcos Simplício, da SBC, o pesquisador Matheus Soares e o advogado Edson Araújo. O autor de um dos posts foi procurado, mas não respondeu até a publicação deste texto. Os outros três não permitem o envio de mensagens pelo X.

Por que o Comprova explicou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta nesse monitoramento um tema que está gerando muitas dúvidas e desinformação, o Comprova Explica. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O Comprova já verificou diversos posts com desinformação sobre o processo eleitoral. Confira algumas publicações da iniciativa:

Outros sites de checagem também verificaram o tema. Recentemente, por exemplo, o Estadão Verifica publicou ser falso que urnas do Senado tenham sido auditadas após rejeição de indicação de Messias ao STF e que o código-fonte das urnas é aberto desde 2002, diferentemente do que diz postagem.

Contextualizando

Investigado por: 14/08/2026

Nem Mendonça nem qualquer ministro do STF possui prerrogativa legal para escolher delegados em um inquérito policial

Contextualizando
Constituição e Código de Processo Penal garantem autonomia à Polícia Federal para formar equipes de investigação; atuação de magistrados se restringe a autorizar diligências

Conteúdo analisado: Post em que o autor pergunta ao Grok, a inteligência artificial do X, se “é verdade que André Mendonça destacou delegados que atuaram na Lava Jato para investigar Lulinha”. A ferramenta responde que “não há confirmação de que André Mendonça tenha designado a equipe da PF com delegados da Lava Jato para investigar Lulinha”. 

Onde foi publicado: X.

Contextualizando: Em uma interação com o Grok, um usuário da rede social X questiona se André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), designou uma equipe da Polícia Federal (PF) formada por delegados da Operação Lava Jato para investigar Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula (PT). A ferramenta respondeu que “não há confirmação”, mas a resposta é imprecisa. Ministros do Supremo não possuem prerrogativa legal para escolher delegados em um inquérito. 

Como explica o doutor em Direito pela Universidade de Brasília (UnB) Jairo Ponte, a formação da equipe é uma atribuição administrativa e interna da Polícia Federal. “O que ele [ministro] faz é responder aos pedidos apresentados pelo Ministério Público ou pelas polícias investigativas”, afirma o especialista, esclarecendo que o magistrado apenas autoriza diligências.

Segundo a Constituição Federal de 1988, compete exclusivamente à União legislar sobre a competência da Polícia Federal (PF), além de ser estabelecido o princípio acusatório (previsto também no artigo 3º-A do Código de Processo Penal), que separa as funções de investigar/acusar e julgar. O objetivo é evitar que o juiz se envolva na produção de provas e julgue uma acusação que ele próprio ajudou a construir.

Nesse sentido, o jurista afirma que uma intervenção do STF na escolha dos agentes violaria a base do sistema de Justiça. “Não faz nenhum sentido dizer que o ministro tem qualquer gerência específica sobre a atividade policial, sobre as questões para serem esclarecidas ou sobre métodos a serem adotados, muito menos quem é o delegado que vai realizar a investigação”, diz Ponte, que também é vice-coordenador da graduação em Direito na Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA). Segundo ele, isso faria o magistrado integrar a apuração, o que “é completamente contrário ao princípio acusatório”.


Colisão entre PF e Mendonça

A postagem se insere em um contexto de embate  entre a PF e André Mendonça, relator no STF do inquérito policial sobre as fraudes no INSS. Em janeiro, a PF informou ao STF que apura se Lulinha seria sócio oculto de Antônio Camilo Antunes, o Careca do INSS, apontado como o principal operador do esquema. 

Como relator do inquérito, Mendonça tomou atitudes que foram encaradas pela PF como uma intervenção indevida nas investigações. O magistrado determinou que o diretor-geral do órgão, Andrei Rodrigues, ficasse de fora do inquérito do INSS e sem acesso a informações, e que a PF repassasse ao STF, de forma imediata, todas as informações do caso e perícias transcritas na íntegra, o que centralizaria as investigações no gabinete do ministro.

Além disso, Mendonça ordenou que qualquer afastamento de policiais da equipe de investigação fosse comunicado previamente ao seu gabinete. A determinação ocorreu após a PF mudar a coordenação do inquérito do INSS, desagradando o gabinete do ministro.

Diante da repercussão do caso e da nota produzida por 27 superintendentes regionais em defesa do diretor-geral da corporação, André Mendonça se reuniu, no dia 6 de agosto, com o ministro da Justiça, Wellington Silva, e com o advogado-geral da União, Jorge Messias, conforme citam reportagem do G1 e da Folha de S.Paulo

O encontro foi avaliado como oportuno pelos dois lados e abriu espaço para um alinhamento institucional, e uma possível reunião entre Mendonça e Andrei Rodrigues, o que ainda não há data para ocorrer.

STF pode escolher delegados? Entenda o que diz a lei 

Não. A Constituição Federal de 1988 consolidou uma estrutura predominantemente acusatória, embora parte da doutrina sustente que o sistema brasileiro ainda preserva traços do sistema inquisitório e, por isso, seria misto. No modelo acusatório, as funções de acusar, defender e julgar são separadas, garantindo maior imparcialidade ao juiz. Já no sistema inquisitório, essas funções podem ficar concentradas na mesma autoridade, que assume um papel mais ativo na investigação e na produção de provas. Assim, a investigação direta pelos tribunais hoje restringe-se estritamente a fatos e membros da própria instituição.

Como afirmado acima, é a União que legisla sobre a competência da Polícia Federal. Por essa razão, um ministro do STF ou qualquer juiz não pode escolher delegados, orientar a estratégia investigativa ou conduzir a coleta de provas. Por isso, o Judiciário não conduz investigações; essa atribuição cabe às polícias e ao Ministério Público. 

A atuação judicial ocorre apenas para autorizar medidas restritivas (como quebras de sigilo e interceptação) ou em casos de prerrogativa de foro. O mais correto, portanto, é dizer que o STF autorizou determinada diligência, e não que a determinou ou conduziu.

Além disso, o magistrado não deve negociar seus termos nem discutir o conteúdo probatório como se fosse parte da investigação. A relevância dessa imparcialidade motivou a criação do juiz de garantias em 2019, figura que analisa medidas na fase investigativa, mas não julga a ação principal. Embora tenha aplicação distinta no STF, esse modelo reforça a necessidade de evitar a contaminação do julgador. Portanto, polícia, Ministério Público e Judiciário atuam de forma autônoma, sem hierarquia em suas funções típicas. 

Jairo Ponte esclarece que se trata de uma questão que envolve direito penal, processo penal, direito constitucional, organização do Estado e, sobretudo, o princípio da separação dos Poderes.

“Considerando que o ministro do STF funciona, neste caso, apenas para autorizar atividades específicas da atividade investigativa, não faz sentido que tenha qualquer gerência específica sobre a atividade policial, nem definindo questões para serem esclarecidas, nem métodos ou procedimentos a serem adotados, muito menos definindo quem é o agente que vai realizar a investigação. Agindo assim, o ministro se torna parte estrutural da investigação. O que é completamente contrário ao princípio acusatório”, conclui o especialista.

André Luiz de Carvalho Matheus, mestre em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e doutorando em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), ressalta que um ministro do STF ou qualquer juiz não pode escolher delegados, orientar a estratégia investigativa ou conduzir a coleta de provas. 

“Isso comprometeria a separação entre investigar, acusar e julgar, pilares do sistema acusatório. Um exemplo seria a análise de uma colaboração premiada. O magistrado não deve negociar seus termos nem discutir o conteúdo probatório como se fosse parte da investigação”.

Portanto, a investigação criminal é conduzida, em regra, pela polícia, mediante inquérito policial. O delegado pode instaurar e conduzir a apuração, mas não pode arquivar o inquérito por iniciativa própria. O arquivamento depende de manifestação do Ministério Público, que é o titular da ação penal pública e que é responsável por oferecer, ou não, a denúncia.

Em suma, cabe ao Poder Judiciário não assumir a função de investigador, determinar linhas investigativas ou interferir na produção de provas como se integrasse a acusação.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova 


A publicação no X foi feita no dia 1º de agosto por um perfil que não apresenta a identidade de seu autor. A conta foi criada em março de 2023 e possui 48,2 mil seguidores. Até a publicação desta checagem, o post alcançou 29,6 mil visualizações. Entre os comentários, um usuário afirmou: “Ou seja, é verdade”.

Na descrição do perfil, o autor da postagem se apresenta como advogado e professor que odeia injustiças. Ele utiliza frase de Paulo Freire na bio de seu perfil: “Se a educação não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. As publicações do usuário, em sua maioria, são comentários sobre política nacional, muitas vezes compartilhando notícias acompanhadas de críticas e ironias direcionadas a atores políticos da direita.

Em outras publicações, o perfil também distorceu informações de reportagens publicadas em março de 2026 sobre a presença do delegado Thiago Marcantonio Ferreira no gabinete de André Mendonça. As reportagens não afirmavam que Ferreira havia sido destacado pelo ministro para investigar Lulinha. Na época, a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) afirmou que ele estava cedido ao STF e atuava exclusivamente como assessor do ministro, sem exercer atribuições relacionadas ao cargo de delegado.

Entre alguns dos perfis seguidos pelo usuário há políticos, militantes e apoiadores alinhados com a esquerda, incluindo integrantes do PT, além de outros perfis que costumam comentar política sob essa mesma perspectiva, além de críticas à direita e ao bolsonarismo.

Como o perfil não disponibiliza meios de contato e o envio de mensagem direta não era possível, o Comprova não conseguiu falar com o autor do post.

Por que as pessoas podem ter acreditado

No post, o autor faz uma pergunta ao Grok como se a inteligência artificial do X fosse uma fonte de informações verdadeiras, o que não é, como já mostrou o Comprova. A tática é comumente usada por desinformadores: ao ler o post, os usuários acabam acreditando na resposta do Grok, sem buscar fontes de informação confiáveis.

O post veio depois de uma sequência de outras publicações sobre o assunto. Pessoas que acompanham essa sequência podem ser expostas repetidamente à mesma alegação, o que aumenta sua familiaridade e pode favorecer a percepção de que ela é verdadeira. 

Na madrugada de 1º de agosto, antes de consultar o Grok, o perfil já afirmava que delegados que atuaram na Lava Jato haviam sido destacados por André Mendonça para investigar Lulinha. Às 3h58, disse estar “pesquisando se é verdade”. Quatro minutos após consultar a IA, porém, voltou a apresentar a alegação como fato e, às 4h20, compartilhou a interação com o Grok sob a justificativa de que era para “ninguém achar que é invenção nossa”. No dia anterior, o perfil já havia publicado críticas a Mendonça após o ministro autorizar a abertura de dois inquéritos envolvendo Lulinha.

A alegação também pode ter ganhado credibilidade porque surgiu após reportagens publicadas pela Revista Fórum e pela Veja, em março de 2026, sobre a presença do delegado da Polícia Federal Thiago Marcantonio Ferreira no gabinete do ministro André Mendonça. Os textos relatam que o delegado teve passagem por estruturas associadas à Operação Lava Jato (o que também consta em seu currículo), antes de ocupar cargo de assessor no STF.

No entanto, nenhuma das reportagens afirma que ele seja amigo pessoal de Mendonça, que participe de investigações envolvendo Lulinha ou que tenha sido destacado pelo ministro para investigar o caso. Essas associações passaram a aparecer em publicações posteriores nas redes sociais.

Há ainda apelo à emoção e polarização, perceptíveis nas referências a “perseguir Lulinha”, à Lava Jato e às disputas entre grupos políticos, que inserem a informação em uma narrativa de conflito entre campos ideológicos.

Nesse contexto, a informação pode ter parecido verdadeira porque distorce elementos reais com a repetição de uma alegação não comprovada, apelando à polarização e usando o Grok como aparente mecanismo de verificação. O uso da inteligência artificial dá a impressão de que o conteúdo havia sido verificado, mesmo sem a ferramenta confirmar a informação.

Fontes que consultamos: A Constituição Federal; Jairo Ponte, professor e doutor em Direito; o doutorando em Direito André Luiz de Carvalho Matheus; reportagens da CNN, Revista Fórum e Veja, entre outros veículos; a Associação Nacional de Delegados de Polícia Federal; a Polícia Federal e o gabinete de André Mendonça.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Fato ou Fake, do G1, já concluiu ser falso que Mendonça pode acionar lei autorizando CIA a fazer investigações e prisões no Brasil e o Comprova já explicou que ferramentas de IA podem falhar em checagens e buscas.

Comprova Explica

Investigado por: 11/08/2026

Entenda por que apostas digitais não garantem retorno financeiro e como identificar plataformas autorizadas pelo governo federal

Comprova Explica
Especialistas explicam que jogos caça-níqueis e bets utilizam estratégias de persuasão e algoritmos para manter o apostador jogando, sem a certeza de obtenção do lucro.

Conteúdo analisado: Conteúdos viralizados nas redes sociais incentivam a prática de apostas em casas virtuais e divulgam cursos para orientar novos apostadores. O Comprova identificou influenciadores relatando supostas experiências de sucesso com plataformas de jogos, ensinando a apostar e dando dicas aos jogadores. Muitos desses conteúdos são divulgados em transmissões ao vivo que reúnem milhares de espectadores e mostram o passo a passo para apostar.

Comprova Explica: As casas de apostas lucram com o grande volume de jogos e usam estratégias para estimular a permanência dos usuários nos aplicativos. Um estudo recente, com base em dados do Banco Central, aponta que essas plataformas provocaram uma saída líquida de R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras em 2025.

A seguir, esta seção do Comprova Explica mostra como essas plataformas operam no país, como evitar sites clandestinos, como se proteger das bets e como procurar ajuda em caso de vício em jogos.

Como funcionam as casas de apostas?

Há diferentes jogos na modalidade virtual, sendo os mais comuns os caça-níqueis, conhecidos como “’tigrinho”, e as apostas em esportes, as “bets”.

Augusto Vargas, doutorando em Matemática da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirma que, em qualquer um desses casos, as plataformas operam com a “vantagem matemática da casa”, ou seja, o dinheiro do apostador garante o lucro de quem oferece o jogo.

Se imaginarmos, por exemplo, um cassino físico, o clássico jogo da roleta possui números divididos entre vermelho e preto, e o zero é representado pela cor verde. Quem aposta em uma das cores não tem exatamente 50% de chance de ganhar. O zero garante uma espécie de taxa ou comissão que a casa recebe.

Essa vantagem matemática é explicada pela Lei dos Grandes Números. Ela determina que, se uma moeda for lançada três vezes, por exemplo, qualquer sequência de ‘cara ou coroa’ é possível, mas, se for lançada dez mil vezes, a proporção entre caras e coroas ficará muito próxima de 50%.

“Uma diferença pequena em cada aposta, multiplicada por milhões de apostas, gera um lucro elevado para a plataforma. Em outras palavras, o volume de apostas é muito mais importante do que o tamanho exato da vantagem matemática”, afirma Vargas. A lógica na aposta virtual é a mesma e as chances do apostador são sempre menores que 50%.

Nas apostas em caça-níqueis, os números ou símbolos caem aleatoriamente por sorteio. No caso das bets, os apostadores se guiam pelas “odds”, isto é, as cotações que indicam o retorno potencial e a probabilidade de um resultado. Quanto menor for esse número, maior é a probabilidade atribuída àquele resultado pela casa. A margem das casas está inserida nas cotações.

Ahmed El Khatib, professor de Finanças da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que as odds são estimadas por algoritmos que utilizam modelos estatísticos altamente sofisticados. “Quando uma odd aponta que vai pagar 1,2 ou 1,5 caso Neymar faça um gol, é porque eles analisaram dezenas de milhares, senão milhões, de probabilidades de história daquele jogador”, detalha.

Existe jogo sem riscos?

Em teoria, explica Vargas, seria possível ganhar dinheiro com riscos reduzidos com as bets caso fosse viável reunir todas as apostas realizadas, todos os valores pagos e recebidos pelos apostadores, o que na prática não acontece. “Essas informações normalmente não estão disponíveis ao público de forma completa”.

Sem acesso aos dados internos da empresa ou sem auditorias independentes e abrangentes, é extremamente difícil estimar com precisão a taxa de acerto.

“Toda aposta, como o nome já diz, é uma aposta, é um jogo de azar, envolve incerteza”.

Quais são os truques das casas para lucrar?

As propagandas financiadas por casas de apostas – inclusive com influenciadores digitais – passam a impressão de que ganhar nesses jogos é fácil, o que, como afirmado, é mentira.

El Khatib observa que muito da sensação de vitória se baseia em um viés de sobrevivência, ou seja, um erro estatístico que ocorre quando se olha apenas para os casos que passaram por um processo de seleção ou que “sobreviveram”, ignorando aqueles que falharam ou desapareceram.

As sequências de acertos exibidas em vídeos, por exemplo, podem acontecer naturalmente, mas muitas pessoas começam a achar que “é uma dádiva de Deus” ou que “a sorte virou”, até perderem na próxima jogada e tentarem recuperar essa perda.

No caso das bets, diz o professor, as odds são variáveis e podem mudar inclusive próximo de um jogo. “Imagine que 90% dos apostadores apostem dinheiro na vitória do Flamengo. Antes do jogo começar, a casa toma medidas para reduzir a odd do time. Ela aumenta a odd do adversário para atrair apostas do outro lado. Ela limita apostas muito grandes”.

O envio de notificações e a oferta de bônus ou promoções a usuários que passam algum tempo sem apostar também são comuns. “Mas raramente é dinheiro grátis. A plataforma oferece R$ 200, mas exige que se aposte 10 vezes esse valor para sacar”, exemplifica.

Outro artifício é oferecer rodadas de poucos segundos para reter a atenção do usuário. Eles trabalham, ainda, com a “psicologia de quase vitória”, ou seja, a sensação de que faltou pouco e que aumenta a motivação para continuar jogando.

Vargas acrescenta que as plataformas aplicam estímulos visuais e sonoros durante o uso dos aplicativos, o que pode manter a pessoa atenta e transmitir a sensação de vitória mesmo em caso de perda. “Imagine uma pessoa que aposta R$ 100 e recebe R$ 25 de volta. Financeiramente, perdeu R$ 75, mas o aplicativo apresenta esse resultado com animações e sons de comemoração, e o cérebro pode interpretá-lo como uma recompensa parcial”.

Em resumo, para os especialistas, o maior truque das casas de apostas não é a manipulação de resultados, mas a construção de um ecossistema em que a vantagem matemática da casa, por meio de técnicas de ciência comportamental, aumenta o tempo de permanência do jogador na plataforma.

Regulamentação e alertas sobre plataformas clandestinas

A legislação brasileira estabelece que a aposta nunca deve ser tratada como investimento.

A Lei das Bets proíbe publicidades que contenham afirmações infundadas sobre as probabilidades de vitória ou sobre ganhos que os apostadores podem esperar. Além disso, portarias do Ministério da Fazenda vedam a apresentação da aposta como “fonte de renda adicional” ou como meio de recuperar valores perdidos.

Operadores legalizados são obrigados a informar que o Retorno Teórico ao Jogador (RTP) é uma medida teórica do sistema e não pode ser interpretado como uma expectativa de ganho individual.

Humberto Ribeiro, diretor jurídico do Sleeping Giants Brasil, explica que a veiculação de promessa enganosa constitui, por si só, publicidade ilícita, pois viola o dever de informação previsto no Código de Defesa do Consumidor.

A plataforma de rede social que permite a veiculação dessa publicidade também comete conduta ilícita, o que, afirma, foi definido no julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) que analisou a constitucionalidade do artigo 19 do Marco Civil da Internet.

Pontos de atenção

Bets autorizadas (veja aqui) devem utilizar o endereço terminado em bet.br. Elas também devem oferecer ferramentas de jogo responsável, como pausas e autoexclusão, e advertir sobre os riscos de dependência.

As plataformas clandestinas não garantem o pagamento de prêmios. Se um site oferece bônus de boas-vindas condicionado a depósito ou não apresenta identificação completa, ele é ilegal.

Em caso de dúvidas ou denúncias relacionadas à legalização das casas de apostas, os canais oficiais são o Fala.BR e o consumidor.gov.br.

Impacto das bets sobre a economia

Com base em informações do Banco Central, o Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) e o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (Cicef) estimam que os brasileiros gastaram com bets, entre outubro de 2024 e março de 2026, um valor líquido médio mensal de R$ 4,7 bilhões. Considerando apenas o ano passado, o montante transferido às plataformas alcançou R$ 62,5 bilhões.

Desse volume, parte retorna aos apostadores na forma de prêmios. O que fica com as empresas é medido por outro indicador: a receita bruta das casas de apostas, que em 2025 somou R$ 36,96 bilhões, segundo a Secretaria de Prêmios e Apostas, do Ministério da Fazenda. Foram identificados 25,2 milhões de indivíduos apostando (contabilizados por CPF) em 100,7 milhões de contas nas marcas. Do lado público, o governo recolheu R$ 9 bilhões em tributos sobre as bets no mesmo ano. Entre janeiro e abril de 2026, foram mais R$ 3,1 bilhões.

Onde encontrar ajuda e tratamento gratuito

Segundo a psicóloga Aline Batista, durante o jogo ocorre a liberação de dopamina, o neurotransmissor responsável por regular o sistema de recompensa cerebral e transmitir a sensação de bem-estar.

A partir dessa liberação, um comportamento repetitivo pode surgir, e isso é a principal evidência de dependência. “Não saber parar o comportamento quando está jogando; ficar irritado ou ansioso para jogar; negligenciar tarefas do dia a dia para continuar jogando. É importante procurar canais de atendimento ao notar esses sinais”, orienta.

O Procon-SP lançou, em 2025, um documento que orienta os consumidores sobre os primeiros sinais do vício em bets.

Já o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece teleatendimentos a pessoas com necessidades relacionadas a jogos e apostas. Os atendimentos são feitos pelo aplicativo Meu SUS Digital, no qual o usuário poderá agendar a consulta e receber automaticamente a confirmação do atendimento.

Também existe o site Jogadores Anônimos, uma entidade que auxilia gratuitamente apostadores compulsivos por meio de uma metodologia de 12 passos.

Quem sente que está tendo a vida afetada pode se autoexcluir de sites de apostas via serviço criado pelo Ministério da Fazenda.

Fontes consultadas: Consultamos a lista de casas de apostas regularizadas e pesquisamos as obrigações legais das plataformas de apostas e de redes sociais na Lei das Bets, no Código de Defesa do Consumidor, no Marco Civil da Internet e no Tema 987 ( STF).

Foram ouvidos os seguintes especialistas: o advogado Humberto Ribeiro, diretor jurídico do Sleeping Giants Brasil; Augusto Vargas, doutorando em Matemática pela UFMG; Ahmed El Khatib, professor de Finanças da Unifesp; e a psicóloga Aline Batista. Recorremos, por fim, às orientações sobre vício em jogos do Procon-SP, do SUS e da rede Jogadores Anônimos.

Por que o Comprova explicou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições e golpes digitais. Quando detecta, nesse monitoramento, um tema que gera muitas dúvidas e desinformação, o Comprova Explica. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: A Agência Lupa mostrou que empresas promoveram, na Copa do Mundo, a venda de sites de apostas ilegais. O Aos Fatos constatou que sete em cada dez anúncios nativos de bets em portais de notícias prometem benefícios exagerados ou irregulares.

Este texto foi produzido por jornalistas que participam do programa de Residência no Comprova e conta com o apoio do TikTok.

Comunicados

Investigado por: 29/07/2026

Projeto Comprova lança programa de treinamento e investigação focado em golpes virtuais e desinformação financeira

Comunicado
Com apoio do TikTok, iniciativa da Abraji reúne jornalistas de todas as regiões do país

Diante do crescimento exponencial de fraudes virtuais e do uso malicioso de tecnologias como inteligência artificial e deepfakes, o Projeto Comprova — iniciativa colaborativa liderada pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) — lança um programa especial voltado à investigação de golpes digitais e desinformação financeira. A ação conta com o apoio do TikTok e abrange o treinamento de profissionais, além de um curso gratuito de capacitação aberto a jornalistas e estudantes de comunicação.

A urgência da pauta é reforçada por dados recentes: 83,2% dos brasileiros afirmam ter medo de serem vítimas de fraudes financeiras pela internet ou pelo celular, o que os coloca à mesma altura do medo de crimes violentos, como o roubo à mão armada (82,3%). O dado integra o relatório “Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em parceria com o Datafolha. Além disso, um levantamento anterior do instituto de pesquisa, divulgado em 2025, apontou que “um em cada três brasileiros sofreu algum golpe financeiro virtual com prejuízo nos últimos 12 meses”.

O quadro se agrava com o uso intensivo de ferramentas de IA para criação de conteúdos sintéticos. Para a presidente da Abraji, Ana Carolina Moreno, o impacto da produção de desinformação com inteligência artificial é especialmente danoso no Brasil. “Organizações internacionais como a OCDE já alertaram que a população brasileira tem mais dificuldade de reconhecer conteúdos verídicos e falsos do que a média da população mundial”. Fenômenos como o uso intensivo de redes sociais e o estímulo a aplicativos de mensagens instantâneas, com pacotes de consumo gratuito oferecidos pelas operadoras de telefonia, tornam as pessoas mais suscetíveis a uma série de golpes. Por isso, o papel do jornalismo como serviço público é ainda mais relevante, explica ela.

Nesta quarta-feira, 29 de julho, na véspera do 21º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji na UNIP Paraíso, em São Paulo, um grupo de 12 jornalistas selecionados de todas as regiões do país participa de um treinamento presencial especializado.

Ao longo dos próximos três meses, esses profissionais atuarão na produção de investigações e de materiais explicativos voltados a orientar o público e a desmantelar esquemas fraudulentos. Todo o conteúdo gerado será distribuído pelos canais do Comprova e republicado pelos veículos de comunicação que integram a coalizão. O projeto conta com o apoio do TikTok.

“Estamos muito orgulhosos do lançamento desta parceria com o Comprova. Para nós, é fundamental empoderar nossa comunidade com fontes de informação confiáveis para que saibam como identificar conteúdos fraudulentos na internet. Acreditamos que a segurança é parte fundamental de uma experiência digital saudável e que é condição para o exercício da criatividade, da descoberta e da expressão”, afirma Gustavo Rodrigues, líder de Políticas Públicas para Segurança do TikTok no Brasil.

Em agosto, o projeto expandirá seu alcance com o lançamento de um curso gratuito na Academia Abraji, que oferecerá ferramentas e metodologias para que jornalistas de todo o país aprendam a investigar fraudes no ambiente digital e a desmascarar conteúdos enganosos gerados por IA.

“O Projeto Comprova já treinou cerca de 500 jornalistas na última década para produzirem jornalismo de alta qualidade e rigor na investigação. Saber que ele segue de pé e está ampliando sua rede de repórteres qualificados é uma grande alegria para a Abraji”, conclui Ana Carolina Moreno.

O Projeto Comprova é uma coalizão colaborativa sem fins lucrativos que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação brasileiros para investigar informações suspeitas sobre políticas públicas, eleições e segurança digital. A iniciativa é liderada pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

O público pode sugerir conteúdos para verificação pelo WhatsApp 11-97045-4984.

Comunicados

Investigado por: 23/12/2025

Comprova encerra a oitava fase com abordagem que mira a integridade do ambiente digital

Comunicado
Projeto colaborativo liderado pela Abraji aboliu as etiquetas de “falso”e “enganoso”, incorporou às verificações a análise das táticas usadas para persuadir as pessoas e passou a investigar também golpes virtuais.

Uma nova abordagem pela integridade do ambiente digital

O Comprova, projeto colaborativo de verificação de fatos liderado pela Abraji e do qual fazem parte 42 organizações jornalísticas, encerra hoje a oitava fase de investigações. Em 2025, foram publicadas 201 reportagens investigativas sobre política, saúde, mudanças climáticas e golpes virtuais e foi lançado um canal no WhatsApp.

Desde as eleições de 2018, o Comprova tem sido um projeto colaborativo relevante na formação de jornalistas, na disseminação de boas práticas de investigação e de transparência e no enfrentamento aos discursos de ódio e à disseminação de conteúdos inautênticos. Mas 2025 foi um ano de grandes mudanças no modo como o Comprova aborda a desinformação.

Em abril, o projeto incorporou ao seu escopo investigações sobre golpes virtuais, com o objetivo de orientar os cidadãos a identificar as táticas utilizadas por agentes maliciosos interessados em aplicar golpes por meio de redes sociais, e-mails ou aplicações de mensagens.

Essa frente faz parte de uma nova estratégia do projeto que busca maior interlocução com as vítimas de golpes e de desinformação no ambiente digital. Em junho, o Comprova anunciou uma nova abordagem, mais empática, que amplia o foco da verificação e adiciona, nas reportagens, duas novas seções. Uma delas mostra quem são os criadores do conteúdo de desinformação, sua autoridade sobre o tema e possíveis intencionalidades. A outra seção analisa o discurso desses atores para identificar as táticas de persuasão empregadas em suas narrativas e mostrar aos leitores por que podem ter acreditado em algo que não encontra respaldo em fatos.

Outras duas mudanças foram implementadas com essa nova abordagem. O Comprova agora produz títulos que afirmam a verdade e evita reproduzir neles boatos e falsidades, inclusive por meio de negações. Por fim, o projeto aboliu o uso de etiquetas como “falso” e “enganoso”, pois considerava que elas poderiam ser um obstáculo à interlocução entre o projeto e as pessoas que haviam acreditado na desinformação.

As mudanças surtiram efeito imediato nos números de audiência do site do Comprova. De junho a outubro, houve um crescimento de 260% no número de novos usuários e de 116% nas visualizações, em comparação com o mesmo período do ano anterior. O projeto está aberto a colaborar com estudos acadêmicos que possam testar, agora, a efetividade dessa nova abordagem na construção de resiliência à desinformação nos cidadãos.

Jornada digital segura

O novo modelo de verificações pretende que cada reportagem seja também uma peça de alfabetização, tanto midiática quanto algorítmica, ou que melhore o entendimento sobre o funcionamento das IAs generativas e sobre seu uso para produzir narrativas falsas ou enganosas, como deepfakes, por exemplo. Queremos colaborar para a integridade do ambiente digital fornecendo informações e recursos para que cada pessoa desenvolva um ceticismo saudável e desfrute de uma jornada digital mais segura.

Em 2025, o Comprova retomou a produção de cursos para o público em geral, revisou seu guia para entendimento básico de IA e produziu um experimento usando o NotebookLM, do Google, para criar um guia em formato de chat para se proteger de golpes virtuais.

A partir desta semana e durante o recesso, as redes sociais do Comprova irão reproduzir verificações sobre golpes virtuais e publicar uma série de vídeos que mostram algumas das táticas mais comuns de persuasão usadas por atores maliciosos para ludibriar e enganar. Veja aqui um exemplo.

A colaboração é a força que move o Comprova

Cada verificação de fatos no Comprova geralmente é realizada por três repórteres de diferentes organizações. Finalizada a investigação, um relatório é submetido à revisão pelos pares e ao menos três jornalistas de organizações que não tomaram parte na investigação devem confirmar que estão de acordo com o relatório. Nesse processo, chamado cross-checking, todos podem questionar, opinar e sugerir alterações, mas o texto final deverá ser fruto de consenso para que a verificação possa ser publicada.

As verificações produzidas pelo Comprova são, portanto, uma criação coletiva e, por isso, a autoria dos relatórios não é creditada individualmente. No entanto, no encerramento de cada fase listamos os repórteres e editores que se envolveram na produção dos conteúdos publicados no período.

Desde o início do projeto, 425 jornalistas já participaram do Comprova. Neste ano, 38 repórteres de diferentes veículos participaram das investigações.

Equipe do Projeto Comprova em 2025

Adriano Soares – Portal Imirante

Alessandra Monnerat – Estadão

Beatriz Araújo – Terra

Bernardo Costa – Estadão

Bruna Buffara – Canal Meio

Carlos Iavelberg – UOL

Cecília Sorgine – AFP

Cido Coelho – SBT e SBT News

Clarissa Pacheco – Estadão

Felipe Salustino – Tribuna do Norte

Fred Carvalho – AFP

Gabriel Belic – Estadão

Gabriel Salotti – O Dia

Gabriela Brasil – Portal Norte

Gabriela Braz – Correio Braziliense

Gabriela Meireles – Estadão

Giovana Frioli – Estadão

Isabela Aleixo – UOL

Jean Laurindo – NSC

Karina Costa – Alma Preta

Karla Araújo – O Popular

Luana Amorim – NSC

Luciana Araújo – Correio de Carajás

Luciana Marschall – Estadão

Luisa Alcantara e Silva – Folha de S. Paulo

Luiza Silvestrini – Canal Meio

Maria Clara Pestre – AFP

Maria Eduarda Nascimento – Estadão

Maria Paula Letti – Canal Meio

Mariana Carneiro – O Popular

Milka Moura – Estadão

Murilo Rodrigues – GZH

Nathália Moreira – UOL

Pedro Prata – Estadão

Thatiany Nascimento – Diário do Nordeste

Thiago Aquino – Agência Tatu

Vanessa Ortiz – Terra

Vinicius Zagoto – A Gazeta

 

Editores fixos

David Michelsohn – Arte

Hélio Miguel Filho – Distribuição

José Antônio Lima

Sérgio Lüdtke

Política

Investigado por: 12/12/2025

Após ingresso no Brics, Etiópia amplia produção de trigo, mas segue dependente de importações

Política
Crescimento agrícola tem avançado com apoio de novos parceiros, mas o país ainda compra grãos dos Estados Unidos e da União Europeia, segundo dados oficiais.

Uma postagem nas redes sociais afirma que a Etiópia não precisa comprar trigo da Europa e dos Estados Unidos pela primeira vez desde 1960 e que se tornou autossuficiente na produção do cereal após a entrada do país no Brics, em janeiro de 2024. A publicação, no entanto, mistura fatos com informações falsas e descontextualizadas. A Etiópia segue mantendo relações comerciais de produtos agrícolas com os EUA e a União Europeia, segundo dados oficiais.

De acordo com relatório do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), a previsão é de que a produção de trigo da Etiópia chegue a 6,5 milhões de toneladas no ano agrícola de 2025/26, impulsionada por melhores rendimentos e pela expansão das áreas agrícolas irrigadas. No mesmo período, projeta-se que as importações de trigo diminuam 24%, para 1,3 milhão de toneladas. O documento também aponta, na página 17, que os Estados Unidos seguem sendo a principal fonte de sorgo, um tipo de grão, destinado à ajuda alimentar na Etiópia.

Já uma tabela da Diretoria-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural da União Europeia mostra que as exportações de trigo comum da União Europeia para a Etiópia caíram nos últimos anos, de 111.840 toneladas em 2021-22 para apenas 12 toneladas em 2024-2025, mas voltaram a subir em 2025-2026, com um registro de 52.920 toneladas.

Consultada pelo Comprova, a conselheira do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Mato Grosso do Sul (Crea-MS), Daniele Marques, detalhou a produção agrícola do país e esclareceu que a Etiópia tem como principais aliados, nas relações comerciais, países como Turquia, Rússia e Ucrânia, que fazem parte da Europa, mas não da União Europeia. Ela ainda afirmou que o país não é autossuficiente na produção de trigo.

“A Etiópia ainda não é autossuficiente. Ela vem tomando uma proporção de desenvolvimento dessa cultura dentro do país, mas ela não é autossuficiente. Os maiores fornecedores históricos não estão nem perto de ser os Estados Unidos. Muito pelo contrário, eles são Turquia, Rússia e Ucrânia”, esclareceu.

Daniele, que também é coordenadora da câmara especializada de agronomia do Crea-MS, detalhou que a Etiópia é a maior produtora de trigo do leste africano, com cerca de 1,95 milhão de hectares cultivados.

O autor da postagem verificada também compartilhou o vídeo de uma página que afirma que o país africano atingiu “recordes de plantação de trigo”, mas sem mencionar autossuficiência ou o término das relações entre a Etiópia, a União Europeia e os Estados Unidos.

Versões das autoridades

Autoridades etíopes afirmaram, recentemente, que o país se tornou o maior produtor de trigo da África. Em 8 de junho, o primeiro-ministro Abiy Ahmed disse que a Etiópia superou a produção do Egito três vezes, de acordo com a Agência de Notícias da Etiópia. Segundo ele, o sucesso pode ser verificado de forma independente por meio de imagens de satélite, que evidenciam a “vasta expansão das terras cultivadas” e indicam um aumento significativo nos rendimentos projetados de trigo.

Já em abril, o embaixador Leulseged Tadese Abebe celebrou: “Hoje, posso dizer com orgulho que nos tornamos o maior exportador de trigo da África”, afirmou, de acordo com entrevista publicada pela equipe de comunicação do BRICS.

No entanto, uma análise da revista The Economist, em março, questionou os dados oficiais do governo. Conforme a reportagem, o gabinete do primeiro-ministro alega que a Etiópia produziu 15,1 milhões de toneladas de trigo na safra de 2022-23, subindo para 23 milhões no ano seguinte, tornando-se o nono maior produtor do mundo.

A publicação aponta que, segundo o Banco Africano de Desenvolvimento, com base “em seus próprios dados e análises de suas operações no país”, o banco estima que a Etiópia produziu 7,5 milhões de toneladas de trigo na safra de 2023-24.

“Isso é mais do que os 4,8 milhões produzidos em 2017-18, mas ainda muito longe dos 15,1 milhões alardeados por Abiy Ahmed”, afirma o texto. No entanto, um artigo do Instituto de Assuntos Exteriores da Etiópia questiona a reportagem do The Economist e as metodologias usadas pelos órgãos independentes utilizados na pesquisa, como a possibilidade das análises por satélite distorcerem os resultados.

Maquinário etíope

A publicação verificada ainda afirma que a Etiópia teve acesso a máquinas agrícolas chinesas de primeiro mundo, após a entrada do país no Brics. Daniele explica que os dois países mantêm relações que envolvendo a comercialização de maquinário. “Os dois países estão dentro do Brics, então eles conseguem fazer essa relação comercial de uma forma mais harmoniosa e fluida. E aí, essas máquinas entram ajudando, principalmente, a alcançar essas projeções para que a Etiópia consiga fazer essas exportações e alcançar os patamares de projeção de melhoria de safra dentro das suas lavouras.”

O vídeo da postagem também mostra máquinas agrícolas da fabricante alemã Claas, representada na Etiópia pela concessionária Kaleb Services Farmer’s House PLC. O Comprova tentou contato com a Claas, mas não obteve resposta até o fechamento da reportagem.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

A postagem verificada foi criada por um influenciador que se identifica como apoiador do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em suas últimas publicações, ele destacou medidas positivas de países com governos de esquerda, como a China, e fez críticas a figuras de direita, como Donald Trump, Tarcísio de Freitas e Michelle Bolsonaro. O Comprova não conseguiu entrar em contato com o autor da postagem.

Por que as pessoas podem ter acreditado

A postagem apresenta descontextualização e falsas conexões, pois utiliza um vídeo verídico de uma plantação da Etiópia para corroborar a informação de que o país é autossuficiente na produção de trigo e de que deixou de importar o produto dos EUA e da União Europeia, o que não é verdadeiro. Além disso, o autor não apresentou a origem das informações na publicação, uma tática clássica de desinformadores. A publicação original, compartilhada pelo influenciador, não menciona que a Etiópia se tornou autossuficiente na produção de trigo.

Fontes que consultamos: A conselheira e especialista em agronomia Daniele Marques, Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), tabela da Diretoria-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural da União Europeia, Agência de Notícias da Etiópia, entrevista publicada pelo site do Brics, The Economist e artigo do Instituto de Assuntos Exteriores da Etiópia.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais, e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já fez outras checagens sobre agronegócio, explicando o impacto dos juros altos no financiamento rural e mostrando ser falso que alimentos com ‘selo da rã’ sejam sintéticos e produzidos por Bill Gates.

Notas da comunidade: Não havia notas da comunidade associadas ao post até o momento desta publicação.

Golpes virtuais

Investigado por: 11/12/2025

Entenda o que é o golpe da CNH Social e saiba como se proteger

Golpes virtuais
Criminosos têm se aproveitado do interesse pelo programa CNH Social para criar sites falsos, enviar mensagens enganosas e pressionar usuários a fornecer dados pessoais ou pagar taxas inexistentes. O Comprova mostra como a fraude opera, quais sinais ajudam a identificá-la e o que fazer para evitar cair em golpes desse tipo.

Golpe da CNH Social

A CNH Social, iniciativa do governo federal, entrou em vigor em agosto, por meio da Lei 15.153/2025. A medida provocou uma alteração no Código de Trânsito Brasileiro, permitindo que recursos arrecadados com multas de trânsito sejam utilizados no custeio da habilitação de condutores de baixa renda. Desde então, o nome do programa tem sido usado por criminosos que tentam se aproveitar dos interessados na iniciativa para enganar pessoas e roubar dados pessoais e dinheiro. Por conta disso, o Comprova explica como essas fraudes têm ocorrido e oferece dicas para se proteger.

Como os golpistas abordam as pessoas?

Os golpes envolvendo a CNH Social vêm sendo identificados pela Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) e pelos Departamentos Estaduais de Trânsito (Detrans) de diferentes estados. A ação dos criminosos começa com a criação de páginas falsas que imitam o portal Gov.br, o Detran e o próprio programa CNH Social, reproduzindo cores, logotipos e estruturas semelhantes às oficiais. A partir dessas páginas, os golpistas buscam obter dados pessoais e dinheiro das vítimas.

As abordagens costumam surgir por meio de mensagens de WhatsApp, SMS, e-mail ou anúncios nas redes sociais que prometem inscrição imediata e gratuita na CNH Social. Para dar aparência de legitimidade, os golpistas usam linguagem institucional e apresentam links que levam a sites falsificados. Esses dados e valores são utilizados para estelionato, clonagem de identidade e outras fraudes posteriores.

Ao Comprova, o advogado Carlos Augusto Pena da Motta Leal, especialista em direito digital e proteção de dados, explicou que os criminosos exploram o desconhecimento do cidadão sobre os procedimentos oficiais. “Eles criam páginas falsas que simulam o ambiente da CNH Digital e induzem o usuário a fornecer dados pessoais, códigos de verificação ou a realizar pagamentos via Pix. Também é comum a criação de perfis falsos que oferecem ‘facilidades’ para emissão ou reativação da CNH”, afirma.

Esse tipo de golpe manipula emocionalmente a vítima com promessas e senso de urgência.

Como se proteger?

Para não cair nos golpes envolvendo a CNH Social e a CNH Digital, é essencial observar alguns sinais comuns utilizados por criminosos. Um dos principais é a pressão por urgência, com mensagens que afirmam que a vaga precisa ser confirmada “imediatamente” ou que a CNH será bloqueada caso o usuário não siga as instruções. Outro alerta é o pedido de pagamento antecipado, geralmente via Pix para contas de pessoas físicas, prática que não ocorre em nenhum serviço oficial relacionado à habilitação.

Também é fundamental desconfiar de links suspeitos, especialmente aqueles que não pertencem a domínios oficiais do governo. Sites do governo federal terminam exclusivamente em .gov.br, enquanto as páginas do governo do Paraná, por exemplo, utilizam .pr.gov.br. Domínios como govcnh.org e cnhssocial.org não têm qualquer relação com o programa CNH Social ou com órgãos públicos. Além disso, órgãos governamentais nunca solicitam senhas, códigos de autenticação ou dados sensíveis por meio de mensagens enviadas diretamente ao cidadão.

Em caso de dúvida, a orientação é acessar apenas o aplicativo oficial da Carteira Digital de Trânsito (CDT) ou os canais do Detran. Evite clicar em links recebidos de terceiros e, sempre que possível, digite manualmente o endereço do órgão no navegador.

A Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) disponibiliza uma ferramenta para validar a autenticidade da CNH, que pode ser utilizada por qualquer cidadão no portal oficial do órgão. Segundo a Senatran, essa funcionalidade é uma forma rápida e segura de verificar se o documento é legítimo e regular, contribuindo para reduzir o risco de fraudes.

Ao Comprova, o Ministério dos Transportes explicou que trabalha em parceria com os Detrans de todo o país, utilizando sistemas avançados de reconhecimento, como a biometria para identificação de candidatos, e integração de dados entre autoescolas e órgãos de trânsito. Essas medidas visam fortalecer a segurança dos processos de habilitação e reduzir a possibilidade de golpes que se aproveitam da falta de familiaridade do cidadão com o funcionamento dos serviços oficiais.

A quem denunciar?

As vítimas devem registrar um boletim de ocorrência sempre que identificarem tentativa ou consumação do golpe. A recomendação é usar a Delegacia de Crimes Cibernéticos, quando houver essa estrutura no Estado, ou a Delegacia Eletrônica, que também recebe denúncias de estelionato digital. O registro ajuda as autoridades a rastrear sites, números de telefone e contas utilizados pelos criminosos.

Também é importante comunicar ao Detran local o uso indevido do nome da instituição e do programa CNH Social. No caso do Paraná, o próprio Detran-PR orienta que todas as suspeitas sejam reportadas pelos canais oficiais, já que o órgão mantém monitoramento ativo e registra ocorrências para evitar novas vítimas.

Perfis e páginas falsas encontrados nas redes sociais devem ser denunciados diretamente às plataformas, que podem remover o conteúdo e bloquear contas envolvidas em fraudes.

Se houver pagamento financeiro, a orientação é informar imediatamente o banco ou instituição responsável pela transação para tentar o bloqueio do Pix ou a recuperação dos valores, conforme prevê o Mecanismo Especial de Devolução (MED) do Banco Central. Dependendo do caso, o consumidor também pode procurar o Procon para registrar uma reclamação e receber orientação adicional.

Por que as pessoas podem ter acreditado?

Os golpistas utilizam uma combinação de técnicas de manipulação para convencer as vítimas. A primeira é a imitação de fontes confiáveis, com sites e perfis que reproduzem visualmente o Gov.br, o Detran e a Senatran, incluindo nomes, cores, selos falsos de segurança e domínios parecidos com os oficiais, o que cria a sensação de que o usuário está em um ambiente legítimo.

A isso soma-se a manipulação emocional, por meio de mensagens que apelam à urgência, como “últimos dias para se inscrever” ou “evite o bloqueio da CNH”, pressionando o cidadão a agir rapidamente e sem verificar as informações. Os golpistas também recorrem ao ocultamento de autoria, operando anonimamente para dificultar o rastreamento da fraude. Além disso, se aproveitam de percepções comuns sobre programas sociais, como a ideia de que são oportunidades simples, gratuitas e amplamente acessíveis.

Toda a operação é estruturada com base em engenharia social, isto é, na persuasão por meio de elementos plausíveis e visualmente familiares que induzem o usuário a fornecer dados pessoais, códigos de segurança ou valores via Pix. Além disso, o golpe mistura informações reais, como a existência do programa e seus critérios sociais, com falsas facilidades, criando uma narrativa que parece coerente justamente por ser parcialmente verdadeira.

Desconfiou que é golpe? O Comprova pode ajudar a verificar. O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, eleições e possíveis golpes digitais, e abre verificações para os conteúdos duvidosos que mais viralizam. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O Comprova já detalhou diversas modalidades de golpes digitais que se apoiam em técnicas semelhantes às observadas no golpe da CNH Social. Em outras verificações, o projeto mostrou como criminosos utilizam phishing, engenharia social, clonagem de sites e falsas páginas de serviços públicos para capturar dados pessoais e induzir pagamentos. Também demonstrou como golpistas exploram emoções, senso de urgência, ofertas aparentemente vantajosas e o desconhecimento sobre processos oficiais para levar vítimas a agir impulsivamente, especialmente em situações que envolvem Pix, boletos e links compartilhados por aplicativos de mensagens.

O Comprova já alertou ainda para golpes que utilizam comunicação fraudulenta imitando órgãos públicos, pedidos de “taxas” inexistentes e tentativas de simular a interface de sistemas governamentais, como ocorreu no golpe da falsa taxa da alfândega e em sites que se passam por plataformas federais de serviços. Nessas apurações, o projeto explicou os principais sinais de falsificação, os riscos de fornecer dados sensíveis e a importância de sempre verificar a autenticidade de domínios e canais oficiais antes de seguir qualquer instrução recebida pela internet.

Política

Investigado por: 10/12/2025

Áudio de Moraes sobre proibir linguajar evangélico foi feito por IA

Política
Conteúdo foi detectado por duas ferramentas de verificação e um especialista. Perfil que compartilhou áudio já foi checado em outras ocasiões.

Foi criado com inteligência artificial (IA) um áudio em que uma voz parecida com a do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes critica o “vocabulário golpista dos evangélicos” e promete proibir falas como “senhor dos senhores, senhor dos exércitos, único Deus e único que é digno”.

Não há registro público de que o ministro tenha feito esse tipo de afirmação. O Comprova procurou notícias sobre o assunto, mas não chegou a nenhum resultado.

O consultor em inteligência artificial Pedro Burgos destacou alguns elementos que indicam a adulteração no áudio. Por exemplo, o fim das frases no áudio nem sempre é pontuado, o que é “um problema comum de modelos geradores de áudio”, segundo Burgos.

O ritmo da fala e a ausência de pausas para respirar também são indícios de uso de IA. “Tem o problema que a acústica da voz fake é meio constante, como se estivesse no vácuo, não tem algo como um eco de uma sala”, acrescentou Burgos.

O conteúdo foi submetido a uma plataforma de detecção de conteúdos gerados por IA chamada Hive Moderation, que indicou uma pontuação agregada de 33,8% de chances de o conteúdo ter sido criado com inteligência artificial. Outra ferramenta, a Hiya/Invid, apontou 93% de chances de o conteúdo ter sido gerado com IA.

Outro forte indício de que o conteúdo não é verdadeiro é que foi publicado inicialmente por um perfil no Instagram que costuma criar áudios falsos de personalidades e políticos.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

O conteúdo foi publicado inicialmente por uma conta que frequentemente divulga áudios falsos. O autor foi verificado pelo Comprova em outras ocasiões (aqui). Ele já havia manipulado a voz de Moraes em outra postagem, como mostrou uma checagem do Estadão Verifica (aqui).

Outras pessoas, como o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o jornalista William Bonner também foram alvo de falsificações (aqui e aqui). O modo de atuação é sempre o mesmo: o autor das postagens se filma enquanto reproduz os áudios supostamente “vazados” no próprio celular. Ele costuma fazer críticas à personalidade usada.

Depois da publicação feita por esse perfil no dia 4 de dezembro, outras contas destinadas a compartilhar conteúdos de direita divulgaram o conteúdo. A com maior alcance atingiu 380 mil curtidas no Instagram até a publicação dessa checagem. Nos comentários, tanto do vídeo original quanto do vídeo republicado, muitos usuários da rede acreditaram no áudio falso.

O Comprova tentou contato com o primeiro perfil a divulgar o áudio falso, mas a conta não permite novas solicitações de contato. Outro responsável pela disseminação do conteúdo foi procurado, mas não respondeu.

Por que as pessoas podem ter acreditado

O áudio checado foi submetido a técnicas para mascarar possíveis erros que podem indicar o uso de IA. Isso pode ter contribuído para que as pessoas acreditassem na fala. Burgos destacou que, primeiramente, o áudio parece uma gravação. Ele foi criado com IA, mas no vídeo que o divulgou, ele parece ter sido gravado com um microfone.

“Não parece ser o áudio original. Tem algo que parece um corte simulado, como se o microfone se afastasse. Isso dá um tom mais genuíno”, explicou.

Outro ponto destacado por Burgos é o uso de uma música constante, que esconde pontos que poderiam entregar que o áudio é sintético.

Esses componentes foram atrelados a uma figura política que está sempre no centro de teorias da conspiração, o ministro Alexandre de Moraes. Isso pode ter inflado o alcance e o crédito do conteúdo, principalmente entre comunidades que rejeitam a figura do magistrado.

Fontes que consultamos: O Comprova submeteu o vídeo a duas ferramentas de detecção de IA, Hive Moderation e Hiya, da plataforma Invid. Também procuramos o especialista Pedro Burgos e a assessoria de imprensa do STF, que não respondeu à tentativa de contato. Procuramos notícias sobre o conteúdo do áudio, mas nenhuma foi encontrada, o que evidencia que o conteúdo foi inventado.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais, e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já fez checagens sobre vídeos feitos com IA. Um deles mostrava um vídeo falso de um estudante atacando Lula e Alexandre de Moraes. Outro conteúdo mostrava um áudio atribuído a Haddad sobre “compra de apoio”, mas o Comprova mostrou que não há evidências de que seja real.

Notas da comunidade: Não há notas da comunidade para esse conteúdo.